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Uma viagem da Índia imperial para ao ballet clássico

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Companhia Nacional de Bailado apresenta, pela primeira vez, a versão integral deste bailado. A coreografia original é de Petipa, a versão portuguesa é de Fernando Duarte

Quando Fernando Duarte era miúdo, teria uns 6 ou 7 anos, o seu pai foi à Índia. Foi uma viagem longa e o pai mandou uma carta à família com um desenho do Taj Mahal, que a mãe teve pendurada lá em casa durante muito tempo. A carta começava assim: "Já posso morrer descansado, já vi o Taj Mahal." Fernando cresceu e ainda não foi à Índia. Mas quando a Companhia Nacional de Bailado lhe propôs criar uma nova produção do bailado La Bayadère, cuja grande parte da ação se passa na Índia, o coreógrafo lembrou-se dessa carta e daquele desenho.

"Este não é um dos bailados que saltam da cartola assim que pensamos em repertório clássico, ao contrário de O Lago dos Cisnes, O Quebra Nozes ou A Bela Adormecida. É quase desconhecido", explica Fernando Duarte. Basta dizer que em Portugal nunca foi apresentada uma versão integral de La Bayadère. Trata-se de uma estreia.

Este foi um bailado criado para o Ballet Imperial de São Petersburgo por Marius Petipa, a partir do libreto de Sergei Khudekov, com música de Ludwig Minkus. La Bayadère estreou-se em 1887, "numa fase em que se transitava do estilo romântico para o estilo clássico - em que as bailarinas passaram a levantar as saias e a mostrar uma nova habilidade, a elevação das pernas e as linhas cada vez mais longas", explica o coreógrafo. "Isso já se vê aqui, no terceiro ato, chamado de Ato Branco ou Ato das Sombras. Já se vê um desenho novo, que deixa de ser redondo e rococó e passa a ser minimal mas com um efeito enorme. Há esse anúncio do repertório clássico e da modernidade."

Depois, La Bayadère "perde-se" com a revolução de 1917 e só volta a ter uma nova versão em 1941, por Chabukiani com o Ballet Kirov, nessa altura já com novo material coreográfico para os homens. Mas "a bailadeira" (tradução literal de La Bayadère) ficou escondida atrás da Cortina de Ferro e só em 1980 Natalia Makarova montou uma nova versão com o American Ballet Theatre, a que se seguiu a versão de Rudolf Nureyev de 1991 com o Ballet da Ópera de Paris.

"Não resta muito da versão original. O Ato Branco, que é o mais apresentado [a CNB fê-lo em 1987], está muito próximo daquilo que se pensa ser a coreografia original, mas o resto tem de ser uma criação nova. E não há assim muitas companhias a fazer a sua versão." Esta é, portanto, uma ocasião especial para Fernando Duarte: "Tentei imaginar como seria hoje se Petipa estivesse a coreografar."

A história de La Bayadère leva--nos, então, numa viagem à Índia: "Naquela altura, as viagens a locais exóticos, como a Índia, que era uma colónia britânica, eram muito apetecíveis", conta Fernando Duarte. "Mas sabia-se muito pouco da Índia. Não é como agora, que com um clique no Google podemos ficar a saber tudo sobre a Índia. Era tudo através de relatos, de desenhos, de postais. E criava-se uma imagem da Índia que não tinha que ver com a realidade."

É essa Índia dos postais que está em cena nesta La Bayadère, através dos fabulosos cenários de José Capela, com uma ajuda dos figurinos desenhados por José António Tenente. Uma Índia imaginada, admite Fernando Duarte. "Aprendi muito sobre a dança indiana, que serviu como inspiração. Tentei colocar vários elementos nesta coreografia, como a posição das mãos e dos pés, o olhar, o movimento das ancas, as posições onduladas, uma sensualidade muito contida. Foi isso que fui buscar à Índia." Essa inspiração é sobretudo visível nos dois primeiros atos, onde se conta o amor do guerreiro Solor e da bailadeira do templo, Nikia. De como Solor é forçado a ficar noivo de Gamzatti, filha do Rajá. De como Gamzatti, sentindo-se ameaçada por Nikia, faz que ela seja mordida por uma cobra venenosa. E de como Nikia, ao perceber que Solor não tem coragem para lutar pelo seu amor, rejeita o antídoto e prefere morrer.

No terceiro ato, a Índia fica esquecida. Estamos nos sonhos de Solor que, adormecido pelo ópio, sonha com a sua verdadeira amada e lhe pede perdão. E ao mesmo tempo deixamos os saris e entramos no mundo dos tutus.

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