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À Conversa com...Ana Leitão "Quero ir às terras onde a dança chega com atraso"

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 Ana Leitão, tem 31 anos, e é mais uma bailarina portuguesa que dá que falar lá fora.

Começou a dançar quase por acaso, depois de uma grande luta contra si mesma. Ana é formada em Astronomia e viveu parte da sua vida a dedicar-se a estas duas áreas: Ciência e Dança.

Atualmente, Ana reside em Barcelona e dedica-se em exclusivo à dança, é membro fundador da companhia Bacantoh e faz parte da organização do festival tudanzas.

Como surgiu a tua ligação com a dança?
A dança na minha vida entrou de forma inesperada. Eu sempre adorei dançar mas, na realidade, nunca pensei ser bailarina ou coreógrafa ou atriz ou qualquer coisa que estivesse relacionada com isso. Eu achava que isso era coisa para gente sem cérebro. O que eu queria era ser astronauta ou cientista de dinossauros ou algo do género.
Dancei folclore e jazz no grupo europeu da Escola Básica de Aranguez em Setúbal, mas era apenas um hobbie.
Foi quando pus a minha irmã no ballet que as coisas mudaram. Decidi colocar a minha irmã no ballet, porque quando eu era pequena queria andar na música e por diversos motivos não me foi possível. Como o ballet era próximo da escola secundária onde eu andava, decidi inscrever lá a minha irmã.
Eu ia sempre vê-la ensaiar e adorava aquilo, já tinha o bichinho cá dentro, mas pensava "oh deixa lá, já és demasiado velha." Um dia a Yolande (professora de ballet) perguntou-me porque não ia eu às aulas de ballet para adultos. Eu pensava que era muito velha, mas lá fui e não me senti assim tão mal na primeira aula.

Entretanto foste estudar para o Porto, onde iniciaste a dança de uma forma mais "séria", certo?
Eu continuava a querer ser astronauta, mas como tinha que ir para a força aérea decidi que o melhor era ir para astronomia.
Assim fui para o Porto, mas depois de ter experimentado a dança como hobbie, já não a pude deixar. Experimentei vários estilos: africanas, capoeira, oriental, brasileiras, mas foi a dança contemporânea que me conquistou.
Eu comecei neste tipo de dança no último ano da Faculdade e adorei. De tal forma que na universidade, através da associação de estudantes, criei o primeiro grupo de dança da Faculdade de Ciências do Porto. Mas foi só ao terminar a faculdade, que acabei por entrar na dança profissional, graças ao Indio Queirós, que me incentivou a fazer as audições do Balleteatro escola profissional, onde me aceitaram e me ensinaram as base de tudo o que sei agora.

Tiraste o curso de dança no Balleteatro em simultâneo com a frequência do teu mestrado em ciências? Foi difícil esta conjugação?
Eu fiz o curso do Balleteatro em simultâneo com o mestrado em "Origem e evolução da Vida" na Universidade do Minho.
Na realidade foi um pouco complicado porque tinha aulas todas as sextas na Universidade do Minho e o Balleteatro era no Porto, então andava numa correria pegada e tinha que ir faltando a umas aulas de um lado ou do outro dependendo dos projetos. Apesar de tudo, tive um grande apoio dos professores, que no início não gostaram muito da ideia mas que acabaram por me ajudar bastante.


Como foste "parar" a Barcelona?
Mais uma casualidade da vida. Eu sabia que queria sair de Portugal, pensava ir para a Holanda, mas apaixonei-me por um catalão e, depois de estudarmos as possibilidades da nossa relação, decidimos que o melhor era irmos viver para Barcelona.
E foi com ele que criei o projeto da Bacantoh.

É mais fácil viver da dança em Barcelona ou em Portugal?
Eu creio que é igual. A única diferença é que estás fora do teu círculo familiar e não tão perto para que te possam socorrer a qualquer momento.
Por um lado é bom, porque te dá muito mais liberdade para ser quem tu queres ser, sem ter medo de ser julgado, mas por outro lado é mais difícil, pois, quer queiras quer não, a comidinha de casa, em épocas de dificuldade, é sempre uma mais valia.

Conjugar a dança com outra atividade profissional é possível? Não sentes necessidade de aumentar o número de horas aos dias?
Neste momento dedico-me só à dança, mas estou a pensar voltar à ciência.
Na altura em que me dedicava às duas áreas, parecia ter tempo suficiente para tudo. O problemas é que as pessoas têm horários e como tal, tens que viver nos horários deles. Não fosse isso e o dia tinha tempo suficiente para fazer tudo. :)

Abraçaste vários projetos, fala-nos um pouco dos que mais te desafiaram e porquê.
A verdade é que ainda continuam a desafiar-me, constantemente.
A companhia desafia-me porque tenho estado mais parada, pois estou em processo de maturação de uma nova forma de pensar a dança.
O espaço Bacantoh, neste momento está fechado, por questões do Ayuntamiento de Barcelona. Foi uma forma de eu aprender na prática de como gerir projetos, incentivar pessoas e abrir corações ao mundo da dança e arte geral.
O festival tudanzas, este ano na sua 3ª edição, foi um boom e com um crescimento exponencial, com muitos bons momentos passados.

E quais os projetos que estão para vir?
Essa parte é segredo, mas uma coisa e certa: novas peças, internacionalização e sempre coisas que tentam marcar em primeiro lugar pela descentralização da dança.

Um regresso a Portugal é algo que poderá acontecer a curto/médio prazo?
Boa pergunta… Em princípio não, pois o meu próximo passo será ir ainda mais longe, às terras onde a dança chega com atraso.

Texto de Rita Bastos | eDANCE
Fotografias cedidas por Ana Leitão

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