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Barbora despede-se do palco como Giselle

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A primeira bailarina da Companhia Nacional de Bailado, Barbora Hruskova despede-se do palco esta noite, na estreia de 'Giselle', no Teatro Camões, em Lisboa. No final, haverá flores, discursos e, quase de certeza, haverá também lágrimas.

Barbora adiou este momento o mais que pôde mas aos 42 anos e com uma lesão na perna, que a atrapalha e magoa há já quatro anos, chegou a altura: a despedida do palco. "Há pessoas que passam por isto facilmente e há outras que não, eu faço parte das pessoas que não", diz Barbora, com os olhos brilhantes, a voz embargada. "Para mim é muito difícil. Eu gosto de tudo nesta vida de bailarina. Não há nada de que não goste. Gosto das aulas, dos ensaios, dos espetáculos, da relação com os coreógrafos, com as pessoas que trabalham à nossa volta, com o público, gosto de tudo, até daquelas coisas pequeninas que mais ninguém vê, aqueles momentos no estúdio, pesquisar um papel, preparar-me para o palco."

Filha de dois bailarinos clássicos, Barbora Hruskova nasceu em maio de 1972 e cresceu no mundo da dança. A mãe era francesa, o pai checo, mas, por motivos políticos, acabaram por se mudar para Basel, na Suíça, onde ela nasceu e viveu até aos quatro anos. A família mudou-se para França, onde os pais abriram uma escola de dança na qual Barbora aprendeu as primeiras posições aos cinco anos.

"O meu primeiro sonho foi ser harpista. Mas os professores de música disseram aos meus pais que primeiro tinha estudar piano e, então, eu estudei piano durante dois anos. Só que, entretanto, continuava com a dança e isso foi-se tornando cada vez mais sério. Aos 11 anos já sabia que queria ser bailarina." Nunca mais quis ser mais nada. "Gostava de tudo, das aulas, da disciplina. E depois tive a sorte de o meu pai começar a criar papéis para mim e também gostava muito do palco. A dança era a minha vida, passava os dias no teatro, via espetáculos, estava rodeada de pessoas deste meio."

Apesar de tudo, os pais tinham dúvidas quanto ao seu futuro. "A minha mãe viu, muito cedo, que eu não tinha as capacidades físicas que era precisas para ser uma boa bailarina", recorda Barbora. A amplitude das ancas, os joelhos, as costas, tudo no seu corpo dizia que ela deveria seguir outra carreira. "Os meus pais nunca acreditaram que eu pudesse chegar a primeira bailarina. Eles sabiam que este é um meio muito difícil e sabiam que eu estava a forçar o meu corpo, muito cedo comecei a ter dores. A minha mãe não queria que eu sofresse. Mas quando temos um sonho nada mais importa e eu só queria dançar."


A mãe avisou-a que, se quisesse continuar a dançar, Barbora teria sempre de trabalhar mais do que os outros bailarinos para conseguir chegar aonde os outros chegavam com mais facilidade. "E foi assim. O meu corpo precisa que eu trabalhe mais para chegar lá. Tenho que chegar mais cedo do que os outros e trabalhar mais. Mas eu gostava de ser bailarina, se era esse o sacrifício que tinha de fazer eu não me importava. Era mesmo uma paixão. Vivia para a dança. Passava os domingos na barra, só queria trabalhar. Não sentia falta do resto porque todos os meus amigos também estavam ligados ao ballet."

Barbora acabou por entrar no Conservatório Superior Nacional de Música e Dança de Paris (1986-1989). "Hei de sempre recordar a minha professora, que foi a primeira pessoa a acreditar em mim, que viu algo em mim, apesar das limitações físicas, e que com isso me deu confiança para continuar."

Aos 17 anos foi para São Francisco e em 1990 voltou para a Europa para integrar o Ballet Real da Flandres como primeira solista. Foi aqui que dançou o seu primeiro papel principal, em Camelot e também o primeiro clássico, em Giselle. A paixão deu lugar ao amor tranquilo de saber que estava no caminho certo. "Precisamos viver também, faz falta a um bailarino, se não tivermos experiência não podemos dar", explica. E Barbora tinha muito para dar. À medida que tinha mais experiência, percebeu que mais do que dançar gostava verdadeiramente de interpretar os papéis. "Poder ter não sei quantas vidas. Procurar dentro de mim aquilo que posso dar a cada personagem. Pesquisar até saber tudo sobre aquele papel."

Em 2003, Barbora Hruskova e o marido, o bailarino Tom Colin, fizeram audições para a Companhia Nacional de Bailado. "Foi uma sorte termos conseguido vir os dois", lembra. "Só viria se ele também conseguisse." Lisboa tornou-se a sua casa. Aqui tiveram um filho, Mathias, que tem agora cinco anos.

No momento de se despedir, Barbora recorda os momentos mais especiais, da Cinderela que o seu pai criou para ela à Julieta, com que sonhava desde miúda, ao lado de Carlos Pinillos, já em Lisboa, passando por uma Giselle muito especial, em Praga, a única vez que a avó a viu dançar. "Há tantos momentos, tantos. Tenho muita sorte."

É com Giselle, que fica em cena em Lisboa até 6 de julho, que se despede do palco, embora vá continuar a trabalhar na CNB. Este é provavelmente o papel que dançou mais vezes. "Mas ainda estou descobrir coisas novas sobre a Giselle", garante. "É muito diferente fazer este papel com 29 ou com 42 anos. Vemos o mundo de maneira diferente e isso altera a nossa interpretação. Isso também é incrível no meu trabalho, estamos sempre a evoluir até ao último dia."

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