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À Conversa com...Hugo Marmelada "Só se vive uma vez por isso tem de se lutar"

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Hugo Marmelada nasceu a 6 de julho de 1987 em Lisboa e foi nesta cidade, num espetáculo da Expo 98, que teve o seu primeiro contacto com a dança.

A partir desse momento Hugo passou a ser uma presença constante em espetáculos, formações e competições de hip hop. Vencedor europeu do concurso MTV Shakedown, participou em várias edições da Eurobattle, foi bailarino num videoclipe do cantor norte-americano Usher, entre muitos outros trabalhos de relevo.

Do hip hop ao contemporâneo, Hugo é hoje um dos bailarinos da Companhia Nacional de Dança Contemporânea da Noruega, Carte Blanche.

Como e porquê começaste a dançar?
Quando visitava a Expo 98 a minha mãe levou-me a vários espetáculos que aconteciam em dias específicos. Um deles, foi de um grupo francês que misturava break com top styles. O grupo chamava-se Ykanji e mais tarde vim a descobrir que o organizador do Juste Debout tinha esse apelido, sendo ele o criador do grupo se não estou em erro.
Quando vi o espetáculo, adorei. Pedi à minha mãe para voltar a vê-los e acabamos por ver todos os espetáculos que tiveram ao longo de uma semana, com a mesma peça. Não sei bem como explicar mas… o espetáculo tocou-me bastante, super divertido e com movimentos incríveis. Tento lembrar-me desse momento e recordo de não conseguir tirar os olhos dos bailarinos e que tudo o que faziam me enchia de grande felicidade. Não queria que fosse o último espetáculo, queria poder voltar a vê-los e sentir-me mais uma vez extasiado pela sua atuação.
Queria ir falar com eles mesmo que não percebendo nada de francês. Nessa altura tinha eu 11 anos e a minha mãe fez de tradutora. A emoção era tanta que até comecei a chorar. A chorar por não poder guardar essa felicidade comigo.
A partir daí, a minha mãe sempre que soube de eventos de hip hop avisou-me e, desde esse espetáculo, sempre fiquei com a curiosidade de voltar a sentir a mesma alegria que tive.
Sem dúvida que encontrei parte, mas sem dúvida que aquele dia em que os vi será sempre especial!
Foi um momento da minha vida.

Num país tão pequeno como Portugal, sofreste algum tipo de dificuldade ou discriminação quando decidiste tornar-te bailarino?
Quando dizes que queres seguir a profissão de bailarino e quase toda a gente te olha como um louco. Penso que essa é das maiores dificuldades por que passei.
Por um lado compreendo mas por outro também é a falta de cultura que existe no país.
Mas é uma boa preparação, pois a realidade da vida de bailarino em Portugal é bastante complicada, tem de se gostar muito para se aceitar as dificuldades que advém dessa vida.
Felizmente tive um grande apoio da minha mãe e dos meus amigos.

Conhecemos-te no mundo do hip hop, hoje, esse mundo para ti está distante?
Não. A cultura hip hop faz parte de mim e do meu dia a dia.
Sempre que chego a Portugal estou com a minha crew "In Motion" e pelo menos uma noitada no Lux acontece a breakar.
As festas que mais gosto continuam a ser as de hip hop, sempre que vou para um novo país tento conhecer o pessoal que dança e, quando posso, vou treinar.
Algumas vezes participo em battles apesar de já não ter a mesma motivação que antes e continuo a dar aulas ocasionalmente.
A única diferença é que neste momento estou a trabalhar a tempo inteiro com a Companhia Nacional de Dança Contemporânea da Noruega, Carte Blanche. Infelizmente o dia só tem 24 horas.


Do hip hop ao contemporâneo, fala-nos do teu percurso.
À medida que a decisão da área que se vai seguir no 10º ano se aproximava, eu questionava-me mais sobre o que queria fazer no meu futuro.
Eu pensava em ser professor de educação física durante a manhã e à tarde dar aulas de hip hop, seguir um pouco as pegadas da minha prof. Patrícia Graça.
Felizmente a minha mãe foi excelente e sugeriu-me que se queria tanto seguir o hip hop porque não descobrir também outros estilos de dança como a dança clássica e moderna, e quem sabe tornar-me um bailarino professional. Se no fim não gostasse seria sempre uma boa experiência dizia a minha mãe. Experimentei o clássico num curso de verão e a minha primeira aula foi com a Sophia Neuparth e não gostava muito daquilo. Passar de aulas com coreografias sempre diferentes e passos sempre novos, tudo para nos divertirmos, para mudar para passos que são sempre os mesmos, que repetes todos os dias, com música clássica e fazer coisas que dói ao corpo, é estranho, pensava eu na altura. Não percebia muito bem porque é que aquilo havia de ser bom para mim. Até me pergunto se naquela altura alguém via algum tipo de talento meu para aquilo.
Antes de entrar no 9º ano foi quando a minha vida mudou radicalmente e devo dizer que a bailarina Rita Spider teve uma grande influência nesta reviravolta.
A minha primeira aula de hip hop foi feita com a Rita ao meu lado, e daí começou a nossa amizade. Ela sendo mais velha que eu e com mais experiência na área (ela arrebentava nas horas para a sua idade!) tornou-se sempre num modelo a seguir.
Sabendo isso e também que ela estava a estudar na Academia de Dança Contemporânea de Setúbal, a minha mãe perguntou-me se não gostaria de fazer provas para essa escola para entrar no 9º ano. Assim poderia experimentar um ano e se não gostasse, voltar para Lisboa e escolher algo diferente para o 10º ano.
Fiz as provas e fui admitido. E passei a estar na mesma escola que o meu ídolo, Rita Spider.
Tive muitas dúvidas em continuar o 10º ano na ADCS. Fiz provas para a Escola de Dança do Conservatório de Lisboa, para estar mais perto de casa, mas não fui admitido. No meio das dúvidas fiz também uma prova para a Escola Profissional Gustave Eiffel, para informática, onde fui aceite mesmo que não tivesse conseguido responder à pergunta do que era um hardware =P
No fim percebi que o que queria era dançar e estar no palco. Apesar das viagens árduas de Lisboa a Setúbal todos os dias e de perder o contacto com todos os meus amigos de longa data de Benfica, percebi que teria de fazer aquele sacrifício para poder concretizar este sonho. Devo admitir que não foi fácil mas consegui e graças a esse percurso estou onde estou neste momento e fico muito grato pela Academia de Dança Contemporânea de Setúbal, por tudo o que me ensinou e apoiou.

Como foste parar à CarteBlanche?
Através de uma audição, na qual tive a sorte de ser escolhido.
Quando finalizava o meu último ano em Barcelona com a Companhia It Dansa fiz algumas audições para tentar encontrar trabalho para o ano seguinte. Fiz duas audições nas quais não fui selecionado, Oldenburg Dance Company na Alemanha e Scapino Ballet na Holanda.
A seguinte foi Carte Blanche. Tive a sorte de conseguir o único contrato que tinham para um bailarino masculino.

A adaptação foi difícil?
O grupo de trabalho é incrível, muito boas pessoas desde do pessoal do palco até aos do escritório. As dificuldades de adaptação foram mais à nova cidade e à sua cultura.
Bergen no inverno tem pouco sol e a Carte Blanche viaja bastante em tourné, então, demorou um pouco a sentir-me em casa nesta cidade.
Bergen tem uma comunidade de 300 portugueses que é bastante unida, o que ajuda. Um dos portugueses que fiquei a conhecer foi através do Bboy Maiur dos Natural Skillz que foi a Bergen visitar o seu irmão. O mundo é pequeno.

De todos os projetos que já integraste, de todos os países por onde passaste, de todos os alunos, públicos, etc., qual o momento que nunca te irás esquecer?
São tantos que não dá para pôr só um…
Quando a minha antiga professora, Patrícia Graça, me convidou para ir para o palco com ela numa convenção quando tinha 11 ou 12 anos, as minhas participações na Eurobattle, vencer a competição europeia do MTV Shakedown, a participação no videoclipe do Usher, o espetáculo do curso de Verão na Escola Superior de Dança, o facto de ter ganho dois prémios no Festival de solos de Dança Contemporânea de Stuttgart, o último espectáculo com a companhia IT Dansa, o projeto Kamuyot na Suécia e Israel, a criação do solo para a Tok’art com o coreógrafo André Mesquita, entre muitos outros…

Pensas regressar a Portugal?
Infelizmente devido ao panorama nacional em relação à dança, agravado pela situação de crise económica em que o país se encontra, não me permite alimentar o sonho de regressar a Portugal.
Ficam as saudades, em particular da "assassinada" Companhia Gulbenkian bailado em 2005.

Quais os próximos projetos que podemos esperar de ti?
De momento continuarei com a Companhia Carte Blanche. Se houver pessoas interessadas em ver um espectáculo nosso, estaremos próximos de Portugal, no dia 19 de Setembro em Biarritz, França, com a apresentação da coreografia “Not Here Not Ever”.
A 21 e 22 de junho estarei em Oslo, no Festival de hip hop Urban Moves. No Verão estarei em Portugal a dar uma aula no evento Dance Summer Camp .

Um conselho para todos os bailarinos que procuram uma carreira internacional.
Só se vive uma vez por isso tem de se lutar.
Aproveitem ao máximo a internet ao nível de toda a informação que podem obter de audições, companhias, coreógrafos, festivais e tudo o mais.

Texto de Rita Bastos | eDANCE
Fotografias cedidas por Hugo Marmelada

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