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À Conversa com...Annarella Sanchéz " Educar Através da Arte"

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Annarella Roura Sánchez é a diretora de uma das mais conceituadas escolas de dança de Portugal, a Academia Annarella.

Nascida em Cuba em 1971, Annarella iniciou-se no ballet com aos 8 anos com o objetivo de vir a ingressar na Escola de Artes na especialidade de Ballet Clássico. Em Cuba, os pequenos bailarinos são selecionados de forma muito rigorosa, aquando do 5º ano de escolaridade. De 500 candidatos que se apresentam por cidade, são escolhidos apenas 30 e Annarella foi uma das escolhidas.

Estivemos à conversa com Annarella que nos falou do seu percurso e do sucesso dos seus alunos.

Como começou a dançar?
A ideia de começar a dançar e de me levar a fazer ballet foi da minha mãe, eu sempre gostei de representar, declamava poesias, fazia peças de teatro na escola primária. Então a minha mãe achou que devia levar-me para uma escola de artes, também achava  que frequentando as aulas de ballet eu ficaria com uma postura e físico mais bonito, diferente das meninas que ficavam sentadas limitando-se só às atividades da escola.

Porque Leiria para casa da Academia Annarella?
Quando visitei Portugal pela primeira vez conheci  várias cidades e fiquei encantada com a Cidade de Leiria. O seu Castelo , a proximidade do mar, as pessoas, a situação geográfica no centro do país, perto de Lisboa e do Porto.  
Em 1998, inaugurei a minha própria escola, o meu objetivo inicial era uma escola de artes à semelhança da minha escola em Cuba. O sonho ficou  no ar, em Portugal, sem apoios, sem a valorização da arte como profissão, era  difícil. Foi então que optei apenas pela dança.


O que diferencia a Academia Annarella? Quais os seus objetivos e missão?
Na nossa Academia , a nossa missão é EDUCAR ATRAVÉS DA DANÇA.
Os nosso objetivo é formar artistas e pessoas que saibam apreciar obras de arte, criar a sensibilidade que o ser humano precisa para viver.
Na nossa Academia  aceitamos crianças a partir dos 3 anos. O que diferencia a Academia Annarella das restantes academias e escolas é, a partir dos 9 anos, termos 2 opções formativas que deixamos à escolha dos pais e dos professores.
A primeira opção é a integração no Grupo de Dança com Ballet de Alto rendimento, para alunos que estão vocacionados para seguir a carreira de dança, alunos que representam o país em festivais e concursos internacionais, estudantes que têm como objetivo prestar audições para o  Conservatório Nacional ou outras escolas superiores de dança ou para companhias de dança profissionais. Os alunos que optam por integrar este grupo  têm aulas de ballet diariamente, de segunda a sábado. 
A segunda opção é a integração no Grupo de Dança e Ballet, direcionada para quem frequenta esta atividade  porque gosta de dançar e para ocupar o tempo livre, porque a dança faz parte da nossa formação como indivíduo. Estes alunos têm aulas técnicas 2 a 3 vezes por semana, participam em vários espetáculos da Academia e em Concursos e Festivais.  
A nossa Academia  promove vários cursos de dança com professores convidados, de Portugal e do estrangeiro, os nossos alunos estão em contacto com várias modalidades de dança, o ballet é obrigatório pois é a base para qualquer tipo de dança. A nossa metodologia de ensino é baseada na Escola Cubana de Ballet, embora também seja complementado com o método da Royal Academy, pois todos os nossos alunos fazem anualmente o exame desta instituição.


No último ano os alunos da Academia Annarella têm sido notícia por receberam vários prémios, este é o resultado de quê?
Os prémios alcançados pelos nossos  alunos são fruto de muito trabalho e dedicação diária por parte dos professores, dos alunos e dos pais, que apoiam  sempre que seja preciso.  Uma caraterística importante que devo destacar é que os nossos alunos têm, diariamente, aulas técnicas de ballet acompanhadas por preparação física e flexibilidade o que diferencia de outras escolas que só fazem coreografias e esquecem as aulas de técnica, porque sem estas aulas não se conseguem bons resultados.
As pessoas, pais e alguns professores, confundem ensaiar uma coreografia com fazer aulas, quando temos de aprender a diferenciar uma da outra. 
Os nossos resultados destacam-se porque conseguimos criar  e separar aulas técnicas, coreográficas e ensaios.
A nossa academia convida excelentes profissionais para trabalhar com os alunos, os professores desempenham um papel fundamental nos resultados. Além das aulas técnicas de ballet e preparação física, temos aulas de dança contemporânea, dança moderna, jazz, sapateado americano, hip hop, danças de salão, música, expressão dramática, história da dança e maquilhagem.
Os resultados alcançados pelos nossos alunos representam um grande orgulho para mim. Quando eles conseguem ser dos melhores do mundo fico com a sensação de dever cumprido. Sim, porque acho que o meu dever em Portugal, especialmente em Leiria, é criar e promover jovens talentos que possam colocar o nome de Portugal bem alto. 

Da sua vida profissional qual o momento que mais a marcou?
O momento que mais me marcou foi a nossa participação, e os resultados obtidos, no YAGP, em Bruxelas e Nova Iorque.
Quando anunciaram o nome na nossa Academia, em segundo lugar entre as 74 escolas participantes, escolas de muita qualidade, além dos muitos prémios individuais, das nossas coreografias serem avaliadas com nota superior a 95.  
Em Nova Iorque, nas finais, o Pas de Trois Fairy Doll ter sido selecionado para abrir a gala das grandes estrelas no Lincoln Center, um privilégio que poucos bailarinos profissionais têm.
Os nossos meninos ficarem no top 12 e o nosso aluno António Casalinho ser medalha de ouro.

E como foi essa experiência?
A participação no YAGP o maior concurso internacional de  dança para estudantes de Ballet foi sempre um sonho. Penso que para todos os professores de ballet, é uma grande realização, o culminar do nosso trabalho. Claro que para nos aventurarmos a participar temos de ter a certeza que estamos muito bem preparados. Participar por participar é só gastar dinheiro e tempo.

O convite para lecionar no curso de verão da American Academy of Ballet era esperado? 
O convite para lecionar no curso de verão na American Academy of Ballet foi uma surpresa. Não esperava um convite assim tão rápido. Logo soube que era um grande reconhecimento ao trabalho realizado e apresentado fora de Portugal.
De repente, fiquei a saber que a nossa Academia é conhecida no mundo inteiro. 
Agora no fim de junho vou para Nova Iorque, onde estarei até fim de julho. Esta será uma nova experiência na minha história como professora de ballet, pois irei tomar parte do corpo docente da American Academy of Ballet. Uma nova porta aberta para abrir os horizontes aos nossos estudantes de ballet, não só os da Academia Annarella mas também para os outros que aspiram por um lugar no mundo da dança.

Quais as maiores dificuldades que encontra no ensino da dança em Portugal?
A  maior dificuldade que encontro no ensino da dança em Portugal é a falta de rigor e disciplina.
Em relação a dança clássica não existe um "Método Português", ou seja, não há um plano de trabalho nacional para escolas de ballet, cada um faz o que lhe apetece.
Existem  muitos falsos professores, de ballet na minha opinião são poucos os bons  professores que sabem incutir as bases nos seus alunos. Os métodos de ensino que alguns aplicam são os das escolas Royal Academy of Dance, da Imperial ou Vaganova  (este último, muitos dizem que o fazem e não têm ideia do que se trata). O método da escola Cubana foi implementado por mim em Portugal, é um método que iniciamos com crianças a partir dos 10 anos de idade.
Em Portugal não existe uma especialização em ballet ou dança clássica, quando fui fazer a minha equivalência na Escola Superior de Dança de Lisboa e mostrei o meu diploma disseram-me que a  Licenciatura em Arte Danzaria Especialidade Ballet Clássico não existia em Portugal, logo depois de reunião do conselho científico deliberaram dar-me a Licenciatura em Dança Ramo Educação com a qualificação de 15 valores, porque até essa data (2001) não existia em Portugal um aluno graduado com nota superior a 15. Eu trazia de Cuba uma certificação com nota máxima de 20 valores.
Falta humildade por parte dos professores, talvez só exista um grupo de 9 espalhados por todo o país que frequenta cursos, participa em concursos, que procura aprender com os que sabem. 
As pessoas confundem dar noções básicas de ballet com ensino de ballet com qualidade. Na maioria conformam-se em ensinar o que aprenderam num dia.


Como as poderíamos ultrapassar?
Estas dificuldades poderiam ser ultrapassadas se os professores das escolas se preocupassem em aprender ou em trocar experiências, incentivando os pais dos seus alunos a participar, como espectadores, em espetáculos de outras escolas, não limitando os seus alunos a assistir unicamente aos seus espetáculos.
Participando em cursos  internacionais, concursos, festivais, intercâmbios culturais, não fechando os alunos entre as quatro paredes de um estúdio de dança.
Muitos professores vivem com medo que roubem os alunos, que os alunos abandonem a sua escola. Eu, pelo contrário, incentivo os meus alunos, tento procurar o que é melhor para eles. Os alunos são como os nossos filhos, temos de os educar, ensinar e depois deixá-los VOAR.

O que podemos esperar da Annarella Sanchez num futuro próximo? E da Academia Annarella?
O  futuro é sempre incerto, nunca sabemos o que será o nosso dia de amanhã, o que garanto é que, para mim, o mais importante é o trabalho diário, a qualidade, a disciplina, a perseverança e incutir nos nossos alunos o amor pela dança.
O futuro da Academia será continuar a desenvolver um trabalho de qualidade como até agora. 

Texto de Rita Bastos | eDANCE
Fotografias cedidas por Annarella Sanchéz

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