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Pindorama de Lia Rodrigues

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Última parte de um tríptico de dança da bailarina Lia Rodrigues, para ver entre hoje e sexta na Culturgest, em Lisboa, e dia 31 no Serralves em Festa, no Porto.

Uma grande manga plástica dobrada vai sendo desenrolada ao longo de uma sala escura. Depois de cumprida a tarefa, um corpo nu vem ocupá-la, deslizando à mercê de uma manga modelada por ondas que, nas extremidades do plástico, vão sendo provocadas por braços dançantes. Pouco a pouco, outros corpos nus se vão juntado à navegação. No final, ficamos perante um corpo só.

Tudo acontece entre bailarinos serpenteando entre espectadores, formando-se assim "Pindorama", terceiro espectáculo da bailarina brasileira Lia Rodrigues, a completar o tríptico iniciado com "Pororoca" (2009) e "Piracema" (2011), e que agora, integrando a programação do Alkantara Festival, vem à Culturgest ser apresentado, com aconteceu com os dois primeiros.

Sobre o terceiro desdobrar desta história que tem vindo a ser contada, Lia Rodrigues, 58 anos, 41 dos quais dedicados à dança, explica: "Estas peças estão todas articuladas. Acho que elas, em comum, falam sobre o colectivo, o como estar junto, de que forma a gente pode criar uma comunidade." As interpretações relativas à ideia de colectivo podem encontrar as mais diversas propostas, mas aqui, os corpos nus não deixam de ser corpo político. Lia explica: "Acho que tudo sempre é político. As escolhas que a gente faz para fazer um trabalho são sempre políticas. Escolher trabalhar com 11 bailarinos que ganham 12 meses ao ano e que têm uma certa estabilidade, ou construir um espaço como fizemos na Maré [favela da Maré, no Rio de Janeiro, onde desde há 10 anos se encontra a Lia Rodrigues Companhia de Dança], tudo isto são projectos que demandam um posicionamento político".

A TERRA PRIMEIRA Em língua tupi, da tribo de índios brasileira com o mesmo nome, Pindorama, que significa "terra das palmeiras", foi o primeiro nome com que se baptizou esta terra, antes da chegada dos europeus. Não é ao acaso que tudo isto se relaciona com a construção do corpo colectivo de que Lia Rodrigues nos falava. "Sempre tive o desejo de pensar num lugar utópico. Como seria o lugar antes da chegada dos portugueses, que possibilidade esse lugar teria de se desenvolver de outra forma? Quando os portugueses chegaram ao Brasil nas caravelas, olharam para aquela terra e pensaram: 'Nossa, não tem nada aqui, a gente pode fazer tudo o que a gente quiser'. Só que que tinha mais de cinco milhões de índios, de etnias, línguas e histórias acontecendo", reflecte Lia. Fala-nos da incapacidade de olhar a diferença, de a reconhecer, e isso "derivou em colonização", acrescenta a bailarina, "o lugar utópico continua por construir". Pensando esta História para o palco, tudo acaba por extravasar: "O facto de a gente estar desenvolvendo esse trabalho na Maré me faz sempre pensar na questão do outro. É tão diferente a maneira como as pessoas vivem, a relação que têm com a arte contemporânea, com o jeito de viver. Tudo isso exige pensar como se faz uma mistura entre você e o outro, como cria um lugar de possível convivência".

Se "Pindorama" concretiza, na sua performance, a convivência comunitária harmoniosa a que se propõe pensar, "isso dependerá da história que cada espectador ali construir", conta Lia, que não arrisca uma conclusão. Na verdade, "Pindorama" é a tela final de um tríptico que não chega ao fim, pretendendo antes ser um abrir de portas. "Não queria que esse fosse o fechar de um tríptico. Gostaria que ele me empurrasse para outro lugar". Para já, fica esta trilogia tupi, pensando nos nomes das suas três partes, como memorando desse espaço utópico por achar. "Usar estes três nomes é um manifesto. Cada vez que a gente os fala, a gente está fazendo com que isto esteja vivo. Mais do que criar uma coisa nova, é afirmar que há algo que existe."

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