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À Conversa com...Sandra Landisch "Imaginar sempre fez parte de mim"

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Designer de moda e bailarina, Sandra Pereira, também conhecida por Landisch, é uma pessoa com uma criatividade imensa. Nasceu a 16 de setembro de 1988 na Alemanha, mas sendo filha de pais portugueses, veio viver para Portugal com apenas 6 anos, onde cresceu e vive atualmente.

Dança desde que se lembra de existir, mas foi apenas na adolescência que começou a levar esta paixão mais a séria. Uma coisa era certa, a sua história ia ficar gravada na cultura Hip Hop. Umas vezes acompanhada pela Tina (Aysha Jhanne) e outras pelo XL ou pelo Phir, Landisch entrou em várias battles onde se entranhou cada vez mais no movimento. Landisch é muitas vezes lembrada como a "miúda do cabelo às cores", pois quando começou a entrar em battles este era um fator que a diferenciava das restantes bgirls.

Agora a sua vida profissional é dedicada ao design de moda, mas toda a influência da cultura Hip Hop se reflete na sua marca LSH, uma marca de streetwear muito dedicada à cultura.

Em apenas uma palavra como te definirias?
Multifacetada

Quando eras pequena, o que sonhavas ser?
Desde pequena que queria ser artista. Pintora, bailarina, estilista, cantora, poeta…
Hoje cresci e sou um pouco de tudo isso, menos cantora porque sou uma aberração, mas adoro escrever pode ser que um dia faça algo mais a sério .

Quando e porquê começaste a dançar?
Desde pequena sempre dancei, fosse com o corpo ou com a mente. Imaginar sempre fez parte de mim.
Vim para Portugal com 6 anos, mas passava as férias de verão na Alemanha. O meu primo era fã número 1 do Michael Jackson e tinha uma coleção dos grandes clássicos do Hip Hop, que eu ouvia às escondidas. Mal eu sabia que aquilo era Hip Hop. Na rua já via pessoal do Hip Hop, o que era raro ver em Portugal, principalmente na minha terra, Santa Maria da Feira.
Aos 12 anos entrei para a ginástica ritmica, queria aprender a fazer mortais e moves esquisitos. Nessa altura já dançava breakdance, mas por mim mesma, através de vídeos que passavam no VH1 e do filme Flashdance. Só mais tarde, quando tive computador é que comecei a ver os clássicos vídeos de breakdance e a aprender mais a sério.

E quando conheceste o mundo do HipHop? Foi "amor à primeira vista"?
Sim, sem dúvida, comecei sozinha, ninguém me disse para gostar, não era moda! Há 13 anos atrás, ainda não era moda. Só estava no movimento quem realmente queria.
Sempre quis saber mais sobre o movimento e estudar a cultura foi algo que sempre me despertou muito interesse. Foi com os chamados "Dinossauros", aqueles portugueses que já estão no movimento há 20 anos, com quem aprendi muito. Hoje em dia, a nova geração quer ser reconhecida, mas não reconhece quem fez muito por esta cultura.


Quando começaste a batalhar?
Em 2004, entrei numa battle em Aveiro, eram 8 bboys e eu fiquei em 3º. Não dançava grande coisa mas já fazia uns freezes esquisitos.
Em 2005, entrei na 1º EUROBATTLE, com a minha irmã Bianca, eu com 15, ela com 13. Poucos bboys conhecia e estava cheia de medo por ser uma competição de grande dimensão a nível nacional. Éramos só 8 bgirls, 2 delas espanholas. Foi aí que conheci a Tina (Aysha Jhanne) e formamos uma crew, Black and White Brothers. Fomos das primeiras gerações de raparigas a entrar em battles a nível nacional, onde ainda ganhamos umas poucas (já agora, um grande abraço para ela).

Mas tiveste outras crews, certo?
Eu já tinha uma crew, as Flying Souls, éramos só raparigas e treinávamos todos os estilos. Dávamos shows aqui pela zona.
Tive também uma crew de Hip Hop com todas as vertentes, os Fusion, era constituída por mim, pelo DJ Dizzy, DJ Tombo, Toman (graffiti), Chily (Popping) e Jonathan (bboying).

Como foi a tua evolução na dança?
Eu nunca fiz formação em dança, a única coisa que fiz foi aprender continuamente, fazendo workshops e aulas . Fiz workshops com o Rodolpho dos Pokemon Crew, com o lilou, com o Julnako e J_onne dos Gaiolin, com os 12 macacos, com o Mix, o Max e o Lagaet em Portugal, com o Lil Rock dos Flying Steps na Alemanha, com o hong 10 na Turquia, isto a nível de Bboying. A nível de Hip Hop fui aluna da Bé Reis em Portugal, mas tanto em Hip Hop como em Popping, Locking e House fiz workshops com quase todos os grandes bailarinos fosse por cá ou lá fora. Em relação a outros estilos nunca fiz grandes workshops, só mesmo mais ligados ao Hip Hop.
Sinto que evolui muito, quando se gosta mesmo, evoluímos sem pensar na evolução, e eu sinto isso. No entanto, há 2 anos que treino com o Lagaet, infelizmente não é um treino continuo por causa do meu trabalho, mas evoluí imenso, é sem duvida a maior referência para mim como bailarino/bboy e pessoa.

E outras referências?
A nível de bailarinas/bgirls, a J_onne, dos Gaiolin Roots, foi uma grande referência para mim. E também a Puffy, não sei onde ela estará, mas quero que saiba que existem pessoas como eu que lhe guardam respeito, pois a sua imagem e a sua dança marcou a minha geração.


Sendo tu uma pessoa bastante criativa, esta ligação ao Hip Hop foi levada para o design de moda. Explica-nos como surgiu esta ideia.
Obrigada por me achares uma pessoa criativa.
Eu sou designer de moda… crio moda... crio streetwear e alta costura.
Neste momento só me dedico ao streetwear. Eu sempre quis ter a minha marca de streetwear, já imaginava isso quando dançava, mas só depois de terminar o curso o fiz. Terminei em 2010, e nesse mesmo ano recebi um convite para ir a Paris à "whos next pret a porter", em 2011, a uma feira internacional de moda. Quem me convidou foi o Dedson dos wanted posse para um coletivo de street artists e streetwear. Fui a única portuguesa nesse team. Conheci o bboy junior que ia desfilar para mim.
Como podem ver está tudo ligado, quando se faz as coisas por amor e pela cultura o tempo fala por si. Não fui eu que falei com o dedson, foi ele que falou comigo, uma referência para mim como bailarino, foi muito bom.

Conseguias imaginar esta ligação entre a dança e a moda?
Mal eu sabia que um dia a dança me ligaria à moda e poderia vestir certas pessoas, como por exemplo, o vicelow dos antigos saian supa crew , uma crew old school de rap francês. O vicelow foi das primeiras pessoas a ter 2 casacos meus, da minha primeira colecção em 2012, que usa em vários videoclips. O baby miles bogalo Brown filho do wildchild dos lootpack também tem um casaco personalizado meu, onde a única foto que tenho dele com o casaco estão os les twins (bailarinos da Beyoncé) ao lado e foi tirada pelo fotógrafo little shao, em paris no juste debout 2012. Sempre admirei o madlib como mc e os lootpack têm sons com ele, e vestir o filho do wildchild é algo gratificante. Para uns pode não parecer mas para mim, é. Porque eu nem sabia que o baby miles era filho do wildchild são daquelas coincidências que acontecem, também mal eu sabia que os les twins se iam por na foto no preciso momento que foi tirada.
Hip Hop telepatia? Sem dúvida.
Devo também citar já agora a reverie, uma mc de Los Angeles, também tem um casaco meu que usa num videoclip. Existe outra cantora internacional que tem um à sua espera mas não posso adiantar quem é porque ainda não chegou a hora de anunciar.


Em que consiste a marca LSH e o que a diferencia de todas as outras?
LSH - Landisch Street Histyla significa : Landisch – sou eu , street- pela cultura- histyla- historia com estilo.
Nasceu com a finalidade de criar moda a um preço acessível para os meus. Algo que adoro fazer e algo que é fácil para mim, criar, porque vivo a cultura desde muito cedo, a minha maior inspiração são as memorias que guardo.
É uma marca que visa, sem dúvida, fortificar as raízes do Hip Hop e as minhas colecções têm sempre uma mensagem ou uma simbologia por detrás.
Não quero fazer apenas coleções para vender, para isso fazia alta costura para os ricos e não me preocupada com LSH que não me dá muito dinheiro. Eu quero primeiro fazer pelos meus, um dia mais tarde quero fazer alta costura e misturar com streetwear, isso está para breve e os preços também serão outros mas LSH será sempre a marca para os que entendem porque ela existe.
A sua história e a pessoa por trás. A Landisch é reconhecida nas ruas desde há muitos anos, não é uma marca, mas sim uma pessoa versátil com amor pelo Hip Hop, e que está por trás da LSH.
Não sei que diferenças poderá ter com as outras porque eu não ando a ver o que as outras fazem, nem a comparar, se calhar a diferença está aí. Vivo a 100% para o que faço sem pensar em marcas competitivas. Para mim, isso não existe. Há espaço para todos, cada um sabe o seu destino, o seu público alvo e onde quer chegar. Eu sei o meu e estou a lutar por ele.
LSH é algo que marca mais que uma marca.

A nova coleção já aí está, o que nos podes dizer dela?
A nova coleção é uma coleção muito especial e limitada.
É uma parceria com dois grandes artistas do graffiti nacional, o OKER e o MRDHEO . São sweatshirts com simbologia, com uma mensagem por detrás e pensadas ao detalhe. Não me importa vender, mas sim, fazer as coisas com sentido.
Antigamente partilhava-se um som , um spot para treinar, uma lata para pintar. E hoje também, mas hoje em dia há muito mais interesse por trás. Um dia, fui grande fã deles e um dia eles me deram os props . O mundo gira e o tempo também, mas quem comanda a vida é o coração e a determinação naquilo que se faz com vontade. Primeiro deve-se fazer as coisas sem interesse e por respeito e mais tarde com respeito , com união e partilha porque se torna interessante. Foi isso que aconteceu.


Onde é possível comprar os teus artigos?
Podem visitar a minha página no facebook e está lá toda a informação. Também podem visitar o site www.landischstreethistyla.com

Continuas a dançar?
Sempre tentei passar a mensagem , não dou aulas de momento devido à falta de tempo, mas já dei. No entanto, voluntario-me desde que haja tempo para passar informação, ensinar e aprender.
Se continuo a dançar? Sempre e nunca vou deixar de o fazer.

Outras coisas sobre ti que possamos saber?
Adoro viajar e conhecer culturas. Mais do que viajar à toa gosto mesmo de sugar a cultura, aprender línguas novas, conhecer e falar com pessoas e aprender com elas. Hoje em dia é difícil encontrar pessoas mesmo havendo biliões de pessoas.
O melhor concerto de Hip Hop que vi foi na minha viagem à Síria, em 2009, onde um jovem estava a dar um concerto amador e a fazer beatbox. Não entendi o que ele dizia mas senti a pureza dele e a luta dele para ser entendido.

Quero agradecer a todos os que contribuíram para o meu crescimento nesta cultura e a todos os que respeitam o meu trabalho. Com amor LANDISCH.


Texto de Rita Bastos | eDANCE
Fotografias cedidas por Sandra Landisch


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