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À Conversa com...Né Marques "Quero pôr o Street Jazz português no mapa"

. . 17 comentários:
Chama-se Neuza Marques e nasceu no Porto há 26 anos, mas é por Né Marques que a conhecemos no mundo da dança.

Com um estilo irreverente e sexy, Né debateu-se durante toda a sua vida com a aceitação do mesmo. Consumidora assumida de música "comercial" Né sempre se identificou com o trabalho de estrelas como Britney Spears, Spice Girls ou Shakira. No entanto, foi apenas após muita formação nos mais diversos estilos que Né associa o seu estilo ao Street Jazz, um estilo pouco conhecido em Portugal.

Hoje, Né Marques é o maior nome nacional do Street Jazz e luta diariamente para a projeção e aceitação deste estilo, ainda bastante desconhecido e descriminado no nosso país.

Como surgiu a dança na tua vida? Fala-nos um pouco do teu trajeto.
Comecei a dançar em frente ao espelho ainda em criança. Passei a minha infância a atuar para a família e a treinar em frente às vitrinas dos móveis na minha sala. A minha irmã ensinava-me a dançar com o meu primo e foi ela quem me ensinou, por brincadeira, os meus primeiros passos.
Quando tinha 6 anos entrei na escola primária e decidi formar uma girls band (sim, até eu me rio disto). Fizemos atuações de dança na escola ao som da música pop da época. Entretanto saí da primária e ao entrar no 5º ano decidi formar um grupo daquilo que, mais tarde soube, se chamava street jazz! Dançávamos ao som de Spice Girls, Britney, Shakira e todos esses nomes da música pop da época.
A minha mãe percebeu a minha paixão e decidiu colocar-me no ballet para me ajudar a seguir o meu sonho. Faleceu meses depois, por isso nunca cheguei a entrar numa escola de dança.
Como o dinheiro passou a ser muito pouco, decidi levar o grupo de dança que tinha na escola o mais longe possível. Tivemos o apoio de uma funcionária da escola e acabamos por atuar em imensas festas, bares e saraus. Sempre com roupas irreverentes, sempre muito sexys, sempre muito pop. Já na altura nos achavam diferentes!
Estive neste grupo até aos 16 anos, altura em que o meu namorado me apresentou o mundo do hip-hop através do Raul Pereira, do Max Oliveira e da Bé Reis (a quem agradeço tudo). Rapidamente quis fazer formação na área, o que acabou por me afastar das minhas amigas do grupo e aproximar de outro mundo. Por isso mesmo fui trabalhar para conseguir pagar academias e comecei aí a fazer formação. Andei pelo ragga, pelo hip-hop e finalmente pelo jazz (onde conheci a Patrícia dos All About Dance que acho ser o grande nome do jazz português).


E o Street Jazz surge quando e como?
Com 17 anos criei um grupo novo chamado Slave dance, desta vez com o Diogo CC (o meu namorado) e outros amigos interessados no HipHop. No início, decidi continuar na conquista do Street Jazz, mas estar no mundo do HipHop fez-me perder um pouco o meu caminho.
De repente, fizeram-me acreditar, principalmente a família e os amigos, que ser sexy e dançar jazz era só simples e vulgar. Mandavam-me comparar popping com jazz, tentando que percebesse que aquilo que fazia não tinha técnica e não impressionava! Foi uma época complicada, onde investi muito em formação no ragga e no HipHop (não que me arrependa), mas nada no jazz!
Aos 23 anos decidi voltar ao meu sonho de criança e entrei com outra força. Devo-o às minhas duas melhores amigas dessa altura, que acreditavam em mim mais que eu mesma. Fui a 3 países conhecer o Street Jazz internacional, realizei o sonho de conhecer o Brian Friedman (coreógrafo da Britney Spears quando eu era criança), comecei a fazer vídeos e sessões de fotos à semelhança do que os coreógrafos dos artistas Pop fazem lá fora!
Encontrei um nicho de pessoas que se sentiam como eu e que não encontravam Street Jazz em mais lado nenhum. Que se sentiam urbanas, mas que não queriam tirar os tacões dos pés! Pessoas interessadas na fantástica junção da sensualidade do jazz com os movimentos do HipHop.
Decidi finalmente aceitar que me sinto assim e que não há nada de errado em gostar do comercial, do sexy, do pop.
A prova final de que acho que ser diferente é bom e não mau (tantos anos depois) foi tatuar um “Shhh!” no meu braço com um $ - para me lembrar que sou filha da cultura americana e que a opinião dos outros não importa! – e tatuar uma bota Louboutin no outro braço que é também o logotipo do meu grupo de street jazz.

Tens alguns grupos que já te acompanham há alguns anos. Qual o melhor e pior momento por que passaste?
Sim … Slave Dance, Tribal Dance, Wad Crew, Agra Crew…
Foram dois melhores momentos. O primeiro foi juntar dezenas de bailarinos no festival de danças urbanas em 2013 e dançar um mix com a história da minha vida, dedicado à minha mãe! Lembro-me de sair a cantar “i’m on top of the world” do show.
O outro foi dançar na Pulse Tour com a Carmit das Pussycat dolls e, no final, ela dizer-me que Portugal devia ser maluco por ter tantas limitações contra o Street Jazz e pedir-me para tirar uma foto para ela porque eu representava muito bem o Street Jazz e que me achou muito boa na aula dela. Entrei em histerismo! Senti finalmente que o que fazia há 20 anos tinha encaixe no mundo.
Os piores são sempre que as pessoas acham que porque sou Street Jazz tenho de ser promíscua ou vulgar. São aqueles em que tentam minimizar o que faço ou o que os meus alunos sentem. Sempre que sou ridiculamente imitada por pessoas que diziam abertamente que jamais dançariam de tacões ou de forma sensual como a Né Marques faz. Ou sempre que acham que porque amo a cultura pop, a sua música dita de plástico, as suas roupas de marca, os seus artistas sexualizados, tenho de ser necessariamente fútil e estúpida.
Gostava que as pessoas percebessem que há tempo para tudo. Gostar muito de jazz não me impediu de ser a segunda melhor aluna do meu curso de letras nem de trabalhar desde os 16 anos!

Além de esta ser a tua vida profissional, toda a tua imagem e forma de estar está relacionada com o Street Jazz, quais as implicações que esta forma de ser tem?
Honestamente, nenhumas.
Acho que não ser Street Jazz é que teria implicações para mim… (risos).
Andar de tacões, usar maquilhagem todos os dias, adorar fanaticamente moda, ouvir pop e HipHop, gostar de imagens sexys… é apenas natural.
Pedirem-me para fazer diferente disto é que me custa imenso e me deixa completamente em baixo.
Não consigo dar dois passos com umas botas rasas, nunca conseguiria sair de casa sem estar arranjada.
Eu e os meus alunos temos algumas piadas em que ridicularizamos o fato de irmos ao médico de tacões ou pintadas. É realmente absurdo, mas nós só temos esta forma de estar. Acho que é por ser natural que nunca nos afastamos do nosso caminho.


O que podemos esperar da Né Marques e dos teus grupos nos próximos tempos?
Gostava de puder fazer outras coisas, após realizar o meu sonho de ser só professora de dança a tempo inteiro.
Adoro modern jazz e lyrical jazz. Gostava também de mostrar um lado mais New Style que tenho. O primeiro passo foi ser comercial e simples – passos sexys, sessões de fotos sexys, roupa de pop star.
Agora quero ter tempo e nome suficiente para mostrar outras facetas. E ter também tempo para levar ao nível seguinte a minha grande paixão pelo street jazz.
Em breve vou conhecer mais alguns dos maiores nomes do Street Jazz, uma vez que tenho uma lista enorme.
Quero energia redobrada porque quero mesmo pôr o Street Jazz português no mapa. Tenho muito bom feedback no estrangeiro. Espero que em breve se traduza em coisas boas.

E...um grande sonho?
Dois, se me for permitido.
O meu maior sonho é que a minha mãe consiga ver que não desisti do meu Street Jazz e que, apesar de ter levado com dramas por todos os lados, estou aqui pronta para continuar a lutar. Prometi-lhe que viveria para a dança e vou fazê-lo enquanto me for possível.
O meu segundo sonho é que o mundo da dança pare com as guerras. Há lugar para todos, só não devia haver para os não formados que andam a enganar uma série de miúdos pelo país!
Eu sou Street Jazz, estarão comigo jovens que amam o mesmo que eu. Não coloco na porta Ragga Jam ou Popping ou Locking porque, apesar de ter muita formação na área, não sou boa nesses estilos nem me sinto parte dessas culturas.
Não falto ao respeito ao HipHop ou a outras áreas dessa forma. Não uso nomes loucos como dança criativa ou dança rítmica para conseguir ter alunos. Já está na hora dos outros estilos respeitarem o trabalho do Street Jazz! E, principalmente, das pessoas terem a humildade de não colocar na porta MTVdance só porque, de repente, parece ser famoso, quando na realidade sempre criticaram o MTVdance. Quando nos unirmos como vemos no estrangeiro a acontecer… a dança portuguesa vai lucrar com isso.



Queres deixar algum agradecimento?
Um grande obrigado às minhas duas melhores amigas por terem acreditado em mim, aos meus alunos por amarem o street jazz e ao Max Oliveira, à Bé Reis e ao Raul Pereira por me mostrarem o HipHop. E obrigado ao Diogo CC por me ter ajudado a construir uma carreira.

Texto de Rita Bastos | eDANCE
Fotografias de Diogo CC

17 comentários:

  1. Não se podia esperar nada menos do principal nome do Street Jazz em Portugal !!! Inspirador sem duvida :) São pessoas como a Né Marques que fazem com que a dança evolua em Portugal!

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  2. É sem dúvida o maior talento do Street Jazz em Portugal!

    Sempre acreditei nela e continuo a acreditar, e sei que um dia vai ainda mais longe!
    O céu é o limite! :-)

    Parabéns Né!

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  3. Boa entrevista...boa entrevistada. Alguém que anda há 20 anos a lutar pela dança na Maia, no Norte... em Portugal. Alguém que dança o que sente, que transmite valores positivos a quem se cruza com ela ,na vida e nas aulas. Que tenta levar a mensagem o mais longe possível e que sem dúvida mudou a vida de dezenas de pessoas durante todos estes anos. Alguém que devia ter muito mais reconhecimento...alguém que é genuíno e o faz pelo amor à dança.. A Dança é a sua crença e isso reflete-se na legião de fãs e alunos que tem vindo a aumentar cada vez mais.
    Quando Portugal começar a aceitar este estilo, quando começarem a dar valor, quando começarem a querer workshops e formação... não se esqueçam do grande nome que ajudar a tornar tudo isto possível. Parabéns Né Marques

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  4. Sem dúvida que é a maior referência de Street Jazz em Portugal. Uma grande lutadora com um objetivo: pôr o Street Jazz português nos olhos do mundo.
    Uma Mulher verdadeiramente inspiradora, muito muito trabalhadora e sempre à procura de fazer melhor e de se superar, o que considero ser um excelente método de trabalho. Só quem a acompanha de perto percebe, realmente, o seu trabalho e a dedicação! Parabéns Né Marques!

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  5. Li a entrevista com um algum agrado. No geral, fiquei com a ideia que a Né Marques deixou de sentir a necessidade de navegar na onda do que é "moda", abandonou a tentativa de se construir de fora para dentro e representa se, antes de mais, a si mesma, aceita a sua própria forma de sentir a musica e viver a Dança e, dou lhe os parabéns por ser genuína e conseguir inspirar cada vez mais gente!!! É fácil de constatar que há alegria, musicalidade e liberdade nas coreografias da Né mas, fico curioso para saber se o Street Jazz tem movimentos base próprios, se se constitui como um "Estilo de Dança", se há uma identidade assumida...!!! Seja como for, Parabéns Né acredita em ti, continua a inspirar, faz o Teu caminho.

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    Respostas
    1. Obrigado...

      Street jazz é a mistura de new Style com jazz... regra geral o nome para quem usa as bases do jazz dance, incluindo roupas e tacões e adapta ao cenário urbano. Chamam-lhe muitas vezes Commercial hip-Hop, MTV dance ou Urban sexy moves! Grandes nomes como Brian Friedman, jersey maniscalco e Miguel Zaraté podem elucidar na distinção! Um grande beijo :-)

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  6. Sem dúvida que a Né uma grande inspiração e é uma das melhores pessoas que conheci...nota se ao longe que o seu coração pertence ao street jazz e nota se também ao longo que ela é uma grande mulher!!!!!! Tou mt orgulhosa por ela ter seguido o seu coração e ter ignorado as inúmeras tentativas para a deitarem abaixo! É uma honra poder acompanhar o seu trabalho de perto e poder ver a sua paixão pela dança. Mts parabéns!!!!!!!!!!!!!!!! ;)

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  7. Sem dúvida de que ela é uma grande inspiração e uma grande mulher! Estou muito orgulhosa dela por seguir o seu coração e dançar e exprimir se como ela é por nunca ter dado ouvidos ás tentativas para a deitarem abaixo. É uma enorme honra poder acompanhar o seu trabalho de perto e poder vê la a evoluir tds os dias, pois ela acredita sempre consegue melhor (apesar de ja dançar estrondosamente bem), o que é uma grande qualidade! Acredito que ela conseguirá levar o Street Jazz português mt longe! Parabénssssssssss ;*

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  8. muito bem amor ! és a maior, continua assim <3

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  9. A verdadeira pioneira sim!
    Tu que nao lutas-te por isto so porque alguem o dançou e ate viste que o pessoal achava piada. Desta vez Né Marques, foste tu a mostrar aos outros o que e bom, o que vale a pena e os frutos trazidos do amor, neste caso pelo street jazz. Amo, tacoes, amo maquilhagem, amo dançar, amo ir ao medico (a morrer) com maquilhagem. e foi contigo que aprendi "qual é o mal?". Nenhum!!! è a minha identidade!
    Continua assim, vou seguir-te sempre! no matter where, no matter what!
    parabéns! finalmente obtivestes resultados nesta guerra! :)

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  10. Grande exemplo de alguém que sabe o que está a fazer e como há de fazer!É impressionante todo o caminho que percorreste e ainda estares a lutar com tanta força para o objetivo que tanto pretendes. Parabéns por todo o teu trabalho Né Marques. O futuro trará oportunidades grandiosas. Serás um ícone português! :)

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  11. Muito Orgulho, sempre disse! Os meus Parabéns espero que te traga muitas novas oportunidades, depois deste tempo todo a lutar contra tudo e todos, já era hora de calar esta gente! Para alem de ensinares esta gente o que é o Street Jazz ensinaste a nos todos o valor da dança, Parabéns!
    Aqui está a prova de que, quando se é realmente muito bom em alguma coisa, não precisamos de nos vender para ser alguém!
    Finalmente alguém reconheceu o trabalho e o empenho desta grande mulher que trabalha a anos.
    Acho giro ver pessoas com grande nome no mercado do Hip Hop em Portugal, ter criticado e minimizado este talento, e agora fazerem grandes espectáculos e produções baseadas em cópias do que aprenderam ao trabalhar com este prodígio!
    Para mim és e sempre serás das pessoas mais inspiradoras, e criativas que quem alguma vez tive o privilégio de dançar e partilhar o palco!

    Continua a passar a tua visão e a tua mensagem ...para que todos nós possamos deslumbrar-nos com essa mente! :)
    Para mim já és uma estrela. Beijinhos e muita sorte!

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  12. Adorei, Né! :D <3
    Serve para abrir os olhos a muita gente! ;)

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