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À Conversa com...J_onne "Façam porque gostam, e não por moda"

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Joana Teixeira, J_onne, pertence à primeira geração de bgirls portuguesas. Com 33 anos é de Vila Nova de Gaia, e foi aí, no Liceu Almeida Garret que conheceu a crew Gaiolin com a qual começou a treinar ainda na década de 90.

O interesse pela cultura HipHop foi crescendo e J_onne foi procurando formação, tendo sido também pioneira nos estilos locking e wacking em Portugal. J_onne refere que não foi a primeira bgirl, mas enquanto outras foram desistindo, ela foi ficando, cada vez mais apaixonada por esta arte.

A paixão foi ficando e a dedicação aumentando e, embora hoje, J_onne se divida entre outras atividades profissionais relacionados com treino desportivo e personal training, a dança continua presente, levando-a a várias competições e nas suas aulas, em que passa para a nova geração, a sua arte e a sua cultura.

O que surgiu primeiro na tua vida a dança ou o hiphop?
Aconteceu tudo, mais ou menos, ao mesmo tempo e por amizades. Tive a sorte de conhecer o Julnako através duma amiga, fui conhecendo, através dele, esta cultura e fui-me identificando. Comecei por ir aos treinos dos Gaiolin no polivalente do Liceu Almeida Garret.

[Entende que naquele tempo, em 96, 97, 98, no Liceu Almeida Garret vivia-se um tempo de novos "artistas", de várias formas, que surgiam (se calhar sem saberem muito bem como). Então na época das "listas"...era a loucura! Contava-me o Julnako que tudo começou com as listas em 95. Nos intervalos era "o fim do mundo", cada lista a puxar por si e o Mundo, dos agora Dealema, e o Julnako a expressarem toda a veia HipHop que já tinham. Em 96, já dançava mais gente, fizeram um videoclipe para as listas e o refrão também ficou na memória "lista x atitude inteligente, o ato consciente p'ra ti que és diferente". Como ganharam, surgiu a ideia de dar aulas no liceu duas vezes por semana. Começou a aparecer pessoal, uns treinavam, outros ficavam só a ver. Nessa altura deram um workshop onde apareceu pessoal de fora e lá começaram a explicar o que era o HipHop. A evolução de toda a cultura foi natural, mais gente começou a aparecer, mais festas no HardClub e outros locais e o pessoal toma-lhe o gosto.]

Então, como podes perceber, tudo para mim surgiu num emaranhado de vivências, de amizades. Fazia e ia por gosto, porque eram os meus amigos. Não porque inicialmente tivesse um objetivo de ganhar uma competição fora, isso veio depois! Era o ambiente na altura.
Os Gaiolin surgem nessa altura, e depois sim, organizados e com foco em levar o nome alto e com orgulho, fomos pioneiros em muitas coisas, o primeiro grupo a ir à Battle Of The Year Espanha, a abrir portas para muitos outros depois terem a confiança para o fazer e sair de Portugal.
Trouxemos cá muitos pioneiros para partilharem os conhecimentos e todos aprendermos mais.
Entretanto e depois de bastante convivência nos Gaiolin, entro definitivamente para o grupo e sou a única rapariga a representar o nome.
Por isso, para mim não há essa separação, surgiu deste tipo de ambiente. A cultura funk e HipHop já me correm nas veias. Faz tudo parte, uma não existe sem a outra.

O que levou a que te dedicasses ao bgirling, numa época em que eram muito poucas as raparigas que praticavam essa arte?
Por essa mesma razão, haviam poucas. Sempre tive "a mania" que era capaz de fazer qualquer coisa a que me propusesse. Tive o incentivo dos Gaiolin City Breakers (depois Gaiolin Roots), que sempre me disseram que era capaz, que tinha o que era preciso. Fui acreditando, fui treinando, fui gostando e foi-se entranhando! Até hoje...
No início eu ficava muito tempo parada, com uma vergonha imensa, mas por dentro já me imaginava a fazer alta sequência, já estava a ferver! Aprendi com isso a ser mais determinada e aos poucos percebi que tb queria mostrar que as raparigas eram capazes!
E a música? Todos os sons funk mexem comigo, é intrínseco, mexo logo o pezinho!


Sendo da primeira geração de bgirls nacionais, qual foi o maior desafio que enfrentaste?
Antes de mim, no liceu, já haviam algumas raparigas que iam treinando e apareciam nas festas. A primeira rapariga foi a LU, já fazia uma volta de windmill (WOW!) havia também um grupo de 3 raparigas (a Marta, a Rita e a Isa) com as quais fui dançando e aprendendo. Entretanto foram desistindo e eu fui ficando. Enchia-me de orgulho estar naquele ambiente com aquelas pessoas, receber "props" porque dançavamos e tinha "style".
O maior desafio sempre foi não deixar ficar mal quem me dava incentivo. Uma luta de mim para mim para não parar, principalmente quando fui evoluindo e representava o nome "Gaiolin" em battles lá fora. O maior desafio é sempre o mental, o caíres no erro de achares que não és capaz e desistires.

Quais os momentos que mais te marcaram?
Quando subi ao palco do HardClub para mostrar como se fazia toprock, num workshop de break do Julnako e ganhar lá a minha primeira competição. Estar no mítico palco do HardClub e ver que o público até gostava do que lá estava a fazer foi o primeiro passo para querer mais!
Em 2006, quando passei com o Julnako, em locking, às semi finais da JusteDebout Paris, com a Ana Sanchez como júri a dizer que nos tinha curtido ver dançar, estar naquele palco, cheio de gente e a dançar, foi um orgulho!
Em Nova Iorque, quando entrei na battle "United Styles" e depois no "Bonnie and Clyde" com o bboy 360 (um local muito respeitado na cultura) e estive sozinha a representar a minha crew.
Creio que quem faz isto por gosto só tem a ganhar e tira sempre boas vivências. Com isto tudo tive a sorte de conhecer um pouco do mundo, dar autógrafos e dar entrevistas (ahah), fazer amigos dentro e fora de Portugal. Enfim, tudo isso é positivo e nos torna mais completos.
Mesmo quando perdemos uma battle ou temos de contar os trocos até ao final do mês porque já gastamos tudo na viagem à battle xpto.

Olhando para trás, o que é que mudou nesta cultura?
Falta um pouco da magia, da inocência do que eu vivi no liceu, por exemplo.
Agora parece tudo virado para a performance, é muito fácil ir ao youtube sacar movimentos, treiná-los e depois, numa battle, "ups foi byte"! Na altura era mais "raw"! Lembro-me que a primeira vez que vi um video de break, era uma K7 VHS que tinha falhas na fita e já tinha passado por mil mãos!
Entretanto, a parte comercial entrou em grande e outros valores, por vezes, parecem querer impor-se.
Mas, é uma cultura relativamente recente, ainda vai ter muitas mudanças e felizmente muitas das raízes ainda estão fortes. A Asia One disse-me um dia "each one, teach one" e é assim que podemos garantir que o princípio se mantém.

Um conselho para os jovens que começam agora a competir?
Antes de pensarem em serem "performers" do HipHop pensem em ser bboys/bgirls, entendam primeiro o que isso quer dizer. Façam porque gostam, e não por moda. Falem com quem já sabe algumas coisas, procurem informação nos sítios certos, ide a concertos, a battles, vivam/conheçam a cultura "live" e não na internet!

Quais os projetos onde te podemos encontrar atualmente?
Neste momento não estou tão ativa na dança como gostaria, tenho outros projetos relacionados com treino desportivo e personal training que me preenchem bastante o tempo.
Dou aulas de dança em escolas primárias, workshops, faço formação e estou em fase de treino para uma competição em maio/junho.
Recentemente, fui júri na competição "Iam da champion" organizada pelo bboy Aiam do meu grupo Gaiolin Roots, no HardClub.

Por isso, ainda estou no ativo, qualquer coisa estou por cá!

Texto de Rita Bastos | eDANCE
Fotografias cedidas por Joana Teixeira


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