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Preparados para mais uma surpresa: a dança

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Tiago Guedes já não é apenas o intérprete/criador por trás do Festival Materiais Diversos. Agora é também o director artístico de um teatro em Torres Novas. Pretexto para uma conversa sobre 10 anos de criação e uma peça nova em que os bailarinos também dançam.

Não é fácil imaginá-lo numa casa a meio da serra, numa aldeia a 20 minutos do centro de Torres Novas, onde fica o Teatro Virgínia, que dirige desde Março. Chegar ao teatro para quem vem de fora e não conhece a teia de ruas e rotundas pode não ser fácil (não há placas a indicar o caminho) e, por isso, é preciso parar para perguntar. Joaquim e Álvaro estão à porta de um banco e explicam sem dificuldades como se chega àquela sala reinaugurada em 2005, mas querem saber de onde somos e se é preciso vir de tão longe à procura de um teatro. Quando o coreógrafo Tiago Guedes está a ensaiar ali a sua nova peça, a primeira em cinco anos, e quando essa peça promete dar início a uma nova fase que não passa só por mudar de morada, é certamente preciso.

Hoje, que estreia amanhã no Virgínia, abre uma janela na produção artística deste criador que nasceu numa vila com uma língua própria, Minde, e para quem o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros é um território familiar. Voltar ao teatro, agora como responsável artístico, depois de passar pela direcção do Cine-Teatro São Pedro, em Alcanena, e já com cinco edições do Festival Materiais Diversos no currículo, é como “voltar a casa”, diz ao Ípsilon antes de mais um ensaio, com um cabrito a cheirar a hortelã sobre a mesa. Foi ali que teve as suas primeiras aulas de dança, aos 14 anos.

“Estar a programar um teatro que tem um papel importante na região e mesmo no país, que faz parte do mapa de circulação dos criadores nacionais e não só, é um desafio enorme, mas o facto de ser aqui, perto do sítio onde cresci, traz-me uma sensação de conforto que nem sempre é fácil de explicar”, diz o coreógrafo, que está agora a festejar o décimo aniversário do seu Materiais Diversos, um solo que circulou bastante internacionalmente, mas que foi pouco apresentado em Portugal.

Este aniversário é, aliás, pretexto para voltarmos a ver ainda a sua peça de estreia, Um Solo (2002), e Matrioska (2007), paragens num percurso que inclui também Um Espectáculo com Estreia Marcada (2002), Trio (2005) e Ópera (2007), e Coisas Maravilhosas (2008), obras que ficam fora do ciclo.

Não é estranho fazer este exercício de olhar para trás quando se tem apenas 35 anos? “Se calhar… Mas não é com esse tom de balanço clássico que o faço, até porque tenho uma estreia a acontecer.” A ideia, explica, é mostrar alguns marcos do seu trabalho, tornando mais fácil o contraponto com Hoje e com a nova fase que diz estar a viver e que muito foi influenciada pelo seu trabalho de programador.

Os cinco anos que o separam da última estreia foram cheios e ensinaram-no a “desromantizar o acto criador”. Dinamizar uma associação, programar um festival e um cine-teatro, apoiando artistas mais jovens em co-produções e apresentando espectáculos de importantes nomes da dança internacional como Raimund Hoghe, tornou-o mais pragmático. “Toda esta actividade fora do palco puxou-me para o quotidiano, fez-me ver que o artista não é um iluminado — é um profissional. Hoje trabalho da forma mais séria, justa e respeitosa de que sou capaz, quer como director do teatro, quer como artista. Não sou diferente num e noutro lado.”

É precisamente essa contaminação de papéis que faz do coreógrafo um programador singular, que tem tido nos últimos anos um papel determinante na produção e divulgação, defendem António Pinto Ribeiro e Gil Mendo.

Para o primeiro, comissário geral do Gulbenkian Próximo Futuro e autor de vários textos de ensaio sobre dança, Tiago Guedes é mesmo “responsável pela renovação da programação da dança nos últimos anos em Portugal”, algo que se tornou possível porque, no seu caso como noutros, há muito de criação no acto de dar a ver. Para o segundo, que decide que dança se vê no palco da Culturgest, por onde Hoje vai passar a 6 e 7 de Dezembro (e onde Trio e Coisas Maravilhosas estrearam), o “impacto” do autor de Um Solo como perfomer e coreógrafo estendeu-se naturalmente à sua função de dinamizador cultural. Uma não se pode — ou não se deve — separar da outra.

Olhar para as suas propostas no Teatro Virgínia e no festival é encontrar um programador a dois tempos. No teatro a oferta tem de ser mais ecléctica para poder dar a possibilidade ao público de Torres Novas de encontrar propostas diversificadas e abrangentes, mesmo que não se inscrevam no “gosto” do director artístico. No Materiais Diversos o alinhamento de cada edição é necessariamente mais autoral.

“O Virgínia não pode mostrar apenas aquilo que eu gostaria de ver porque tem uma responsabilidade social para com o público e as outras instituições culturais da cidade”, defende o director artístico. “Temos de optar por espectáculos que lhe dêem uma identidade mas que, ao mesmo tempo, façam a casa. No festival o risco é mais fácil.”

Uma nova fase

As semanas de Tiago Guedes são hoje escrupulosamente divididas entre as suas múltiplas actividades. As últimas têm sido atípicas, porque boa parte do seu tempo tem sido consumido pelos ensaios de Hoje, mas num mês regular o coreógrafo trabalha à segunda no festival, dedica terças, quartas e quintas ao teatro, está em Lisboa na sexta para ver outros criadores e regressa ao Virgínia no sábado para não faltar ao espectáculo da noite. Domingo é dia de folga e é passado na aldeia de Alvados onde a casa nova ainda não tem horta, mas a lareira já convida.

Deste delicado jogo não faz parte, para já, a circulação de espectáculos no estrangeiro, que no passado lhe ocupavam boa parte do tempo. “Não me interessa tanto a internacionalização, estou mais preocupado com o que faço aqui. Foi por isso que não senti que tinha de responder com esta nova peça a digressões anteriores ou que tinha de procurar co-produtores fora. O Hoje está preparado para rodar sem mim [tem um assistente que pode substituí-lo, Pietro Romani].”

Antes desta paragem na criação, as digressões sucessivas deixaram-no cansado da viagem, sem saber a que lugar podia chamar “casa”.

Eliane Dheygere, directora do Le Vivat, centro artístico de Armentières, França, que já lhe garantiu um desses apoios internacionais para a criação ou exibição de Trio, Coisas Maravilhosas e Matrioska, feito a pensar no público infantil, diz que uma das qualidades de Tiago Guedes passa precisamente pela sua capacidade de se adaptar ao trabalho com a comunidade, independentemente do seu contexto. Foi assim, lembra, quando o coreógrafo envolveu 200 amadores daquela região num grande projecto. Dheygere garante que é a “imaginação e o dinamismo” do coreógrafo que, combinados com uma “delicadeza incondicional” lhe permitem chegar com facilidade a vários tipos de público.

O trabalho de proximidade que Tiago Guedes gosta de desenvolver na programação passa sobretudo por uma “grande abertura para ouvir”, algo que é comum ao seu perfil de criador e que se torna evidente a cada novo ensaio de Hoje, peça que tem ainda na sua ficha técnica Lorenzo Senni (música) e Carlos Ramos (luz).

Senta-se com Romani e os intérpretes e co-criadores (Anaísa Lopes, Ângelo Cid Neto, António Onio, Jonas Lopes, Marcella Mancini, Marco da Silva Ferreira e Teresa Silva) para rever o ensaio da véspera e discutir cada alteração à partitura desta obra que, admite, é a mais “intensamente coreografada” que alguma vez fez.

A nova fase do seu percurso enquanto artista passa por aqui — por uma escrita mais afinada no que toca ao movimento e por um discurso que, por estar carregado de preocupações sociais, é muito mais politizado. Os que procurarem em Hoje os objectos, dispositivos cénicos ou figurinos que ancoravam criações anteriores rapidamente chegarão à conclusão de que nele apenas o corpo importa, com todas as reacções que é capaz de desencadear.

“Esta é uma peça eminentemente coreográfica que parte do momento de grande instabilidade em que estamos a viver. Daí usarmos os colchões para criar um chão incerto, como incertas são as nossas relações. Quando pisamos um colchão não podemos antecipar como é que o nosso corpo se vai comportar.”

O movimento é constante e adaptado a cada um. O que se vê em palco resulta do trabalho de dinâmicas de conjunto muito específicas que exigem um estado permanente de atenção. “Pensámos em manifestações, em furacões e outros cataclismos para criar um vocabulário de movimentos que depois são configurados e reconfigurados em tempo real. O espectáculo nunca é igual de uma noite para a outra porque, embora eu saiba o que vai acontecer, não sei como nem quando.”

Esta forma de composição está muito enraizada no começo do seu percurso e no trabalho com João Fiadeiro. Tiago Guedes fez parte de uma geração de criadores e intérpretes que encontrou no bailarino e coreógrafo e na sua estrutura de produção, a RE.AL, um laboratório artístico aberto à experimentação, mas isso não significa que Fiadeiro veja a relação entre ambos num só sentido: “A formação do Tiago passou por mim e pela RE.AL na proporção directa em que a minha passou por ele e pelas obras que criou. Essa ideia de influência recíproca foi, aliás, uma das forças que caracterizou a relação que mantive com o grupo de artistas associados à RE.AL desse período (para além do Tiago, a Cláudia Dias, o Gustavo Sumpta, o Rui Catalão, a Paula Caspão, a Márcia Lança ou a Ana Borralho) a quem devo tanto (quase tudo...) do que penso e faço hoje em dia.”

Fiadeiro acompanhou de perto o processo de construção de Um Solo e de Materiais Diversos e hoje diz que “o modo como o Tiago manuseava os materiais e lhes dava protagonismo ou a forma como pensava o lugar do intérprete enquanto mediador dos acontecimentos, teve um impacto importante e uma influência directa” na forma como abordou Existência (2002) e I Am Here (2003), obras em que o director do Teatro Virgínia foi seu assistente.

Para António Pinto Ribeiro, Tiago Guedes “trouxe um estilo novo, uma forma de organizar o que herdou de outros e combinou com o que inventou, que o distingue como artista”. Parte desse “estilo novo” passa pela ambição de ultrapassar os limites coreográficos, de vencer “o domínio rígido da dança para se alargar a outras linguagens das artes e da sua produção”.

Tal como Fiadeiro, Gil Mendo não está preocupado em traçar uma evolução linear na obra de Tiago Guedes. O programador da Culturgest prefere olhar para cada criação isoladamente, embora reconheça que há marcas comuns no conjunto, como “o rigor da construção coreográfica, a proximidade com a performance e as artes plásticas, a facilidade de trabalhar a partir de gestos/acções/tarefas ‘do quotidiano’ com recurso a materiais ‘pobres’ e com eles construir um objecto visual forte e uma trama narrativa”.

A única certeza que Gil Mendo tem em relação a Hoje é a de que será confrontado com o inesperado, como sempre lhe acontece nos trabalhos de Tiago Guedes, quer estejam mais próximos da performance/instalação, quer sejam assumidamente de palco. “Todos os trabalhos do Tiago me surpreenderam e estou preparado para que ele me surpreenda de novo.”

Depois de se apresentar na “casa” de Tiago Guedes, Hoje segue para o Porto (Teatro São João, 13 e 14 de Dezembro), Guimarães (Vila Flor, 13 Fevereiro) e Viseu (Viriato, 22 de Fevereiro). O coreógrafo conta acompanhar o espectáculo nos palcos portugueses, mas não se compromete com os internacionais. Não pode deixar o teatro e a serra por muito tempo.

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