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A matéria de que esta bailarina foi sendo feita

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Da primeira vez que Tânia Carvalho, hoje com 36 anos, viu a bailarina Leonor Keil, hoje com 40, a coreógrafa lembra-se apenas “de uns quadradinhos de luz e de uma mão que era iluminada”.

Mas lembra-se, sobretudo, da impressão que lhe causou uma bailarina que “chamava muito a atenção no meio dos outros”. Estávamos em 1996, e na efervescência da dança contemporânea portuguesa, a viver a primeira década de transformação, a presença de Leonor Keil, nas peças de Francisco Camacho (Primeiro Nome: Le, 1994; Dom São Sebastião, 1996), fazia-se notar pelo modo como, por uma graça natural, “era difícil olhar para os outros”. Na altura três anos faziam toda a diferença. “Achamos sempre que nunca vão querer trabalhar connosco. Estão lá tão longe”. Mas hoje, quando três anos já não importam, Leonor Keil está sozinha em palco, entregue nas mãos de Tânia Carvalho, com quem a bailarina sempre quis trabalhar mas sempre achou “que era muito difícil”.

Como é que eu vou fazer isto?, que estreia esta tarde no Teatro Viriato, em Viseu, onde Leonor Keil passou os últimos quinze anos, como intérprete da companhia Paulo Ribeiro, é o primeiro passo para um novo ciclo na vida da bailarina. Na surpresa de encontrar alguém, como Tânia Carvalho, que “já traz tudo feito”, o título, os movimentos, as ideias, Leonor encontrou uma “subtileza nos detalhes, do trabalho cirúrgico que faz com que não se saia indiferente”.

O solo é uma experiência onze anos depois, ao nível de um outro passo que podia ter mudado a sua vida, o solo Solitary Virgin, que concebeu para Javier de Frutos e levou ao Festival de Avignon, em França, a primeira apresentação da dança portuguesa no histórico festival francês. Seguir-se-á Olga Roriz, a quem Leonor chamava de professora, quando a encontrava na Escola de Dança do Conservatório Nacional. Em Março, quando Como é que eu vou fazer isto? e Bits and Pieces, se apresentar no Centro Cultural de Belém, será mais claro este novo caminho da vida de uma bailarina que “queria voltar a ter a sensação de ser intérprete”.

Ao longo dos anos, no interior da Companhia Paulo Ribeiro, uma presença solar, que efectivamente ocupava um espaço sem nunca se impor aos outros. Ainda assim, essa presença, essa inevitável sombra, deu-lhe uma menção honrosa, em 1996, pela participação em Rumor de Deuses nos V Rencontres Chorégraphiques Internationales de Seine Saint Denis, em França, e em 1999, o Prémio Revelação – José Ribeiro da Fonte, do então Instituto Português das Artes do Espectáculo, hoje Direcção-geral das Artes.

Tânia Carvalho sempre parca em palavras, descreve Leonor Keil da forma mais pragmática possível: “não é preguiçosa, não dorme, aprende rápido, quer mesmo fazer, e fazer bem o que eu quero”.
Esta exigência é também uma margem de erro que a bailarina quer dar ao coreógrafo: “Às vezes eu própria não sei muito bem o que dar. É muito fácil darmos aquilo que nos é fácil. Talvez seja respeito, mas é um desejo de saber que posso fazer outras coisas. E um respeito pela pessoa que tenho à frente e a quem não gosto de dar o que já dei a outros. Quero perceber bem que palavras, e que imagens, as pessoas usam. A maneira como falam, como fazem as pontuações, como ouvem e vêem o que lhe dou, e qual é o seu tempo de reacção. Tudo isso matéria para eu poder explorar.”

Este novo solo existe como se fossem duas coreografias a correr em paralelo, uma mais expressiva, que faz lembrar o tour de force que Leonor tinha em Noite de Reis (2006, encenação John Mowat), e outra mais interior, que se aproxima do modo como Tânia Carvalho explora o silêncio nas suas próprias peças, como se fossem campos de tensão magnética.

Mas é, na sua brevidade, o resumo mais aproximado ao modo como Leonor Keil pensa, agora, à distância que a celebração de 20 anos de carreira permite: “Deixei que despertassem em mim coisas que, mesmo pequenas, eram distintas, de memória, de um lado negro que não sabia que tinha, um humor que eu sei ser mais natural em mim.”
Das coreografias de Francisco Camacho a Paulo Ribeiro, do cinema de Solveig Nordlund e Edgar Pêra, das encenações de José Wallenstein e Nuno M. Cardoso, entre outros, Keil diz que foi aprendendo a saber reagir ao que lhe era pedido. De cada um posso saber de momentos particulares que suscitaram emoções e movimentos. Mas o que lhes dei não sei. Posso não saber verbalizar mas guardo muito boas memórias de cada criação. Muitas vezes estou a fazer coisas e a criticar, antes mesmo de a completar, porque me estou a lembrar do que já fiz e, por isso, quero descobrir outro caminho”.

Vinte anos depois, Keil diz estar “ mais calma e mais disponível”. “Percebo que, antes, a minha energia era sempre igual. Agora tenho esta capacidade de querer mesmo ver, de me transformar.” No fim, é só isto: “Eu não quero nada. Que façam de mim o que quiserem.”

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