Index Labels

Mariana Ferreira: uma vida a dançar

. . Sem comentários:
Quando pequena, marcava espetáculos nas barracas de praia das vizinhas da avó. Depois, vieram as aulas ballet, mais tarde as de dança... E foi na dança, que Mariana Ferreira descobriu a paixão da sua vida e fez carreira. Hoje, é proprietária da escola Apolo Porto, onde há mais de 15 anos ensina danças.
 
Desde pequena que me lembro de ir para a praia, no Castelo do Queijo, e naquela hora de se fazer a digestão, marcar espetáculos nas barracas das vizinhas da minha avó. Cantava, dançava... Sempre foi fascinada pelo mundo do espetáculo.

Uma das vantagens de se começar a dançar desde cedo é que, quando somos mais pequenos, não temos vergonha. Na fase adulta, temos uma noção da sociedade, daquilo que as pessoas esperam de nós, que nos retrai sobretudo quando decidimos extravasar a nossa alma de artista. Nas suas aulas, Mariana nota, por exemplo, que os miúdos na idade da pré-adolescência já começam a querer esconder o corpo, a ter mais dificuldades em ser protagonistas. Se tivermos uma relação excelente com o nosso corpo, e assumirmos o que somos, não teremos problemas. Mas no nosso país, isso por vezes é difícil...

Ser avaliada nunca foi um problema. No ballet, tentava mostrar todo o trabalho que fazia durante o ano. A primeira vez que pisou uma pista de dança, descobriu  que, para além do público estar muito mais próximo, podia interagir com ele. Aí teve a verdadeira noção que estava a competir com outros. No meio de doze pares, tinha que ser melhor do que outros. Isso dá-nos um estímulo diferente e o próprio público reage de forma diferente.

A dança pode ser uma terapia a vários níveis. É um exercício físico, mental e social. Exercito o meu corpo, sou obrigada a decorar esquemas e a ter que me relacionar com pessoas. A dança é uma das actividades mais completas para o ser humano e que mais pode contribuir para o seu bem-estar.

Estar num espaço e pertencer a um grupo que sente a nossa falta, é infelizmente uma raridade na sociedade de hoje. Para Mariana, é importante criar uma relação com as pessoas e fazê-las sentir que elas são esperadas e têm o seu valor. O grupo que a acompanha está à sua espera para poder privar, brincar, dançar... durante uma hora e meia.

Ganhar a vida a dançar aconteceu naturalmente. Quando comecei a dançar, eu e o meu par fomos uma revelação nesse ano, e a partir daí fomos sempre finalistas a nível nacional. Os alunos do Apolo decidiram então apostar em Mariana, que começou a sua formação para dar aulas. Dar aulas foi a forma que arranjou para suportar as despesas da dança. Nunca pensou que se iria tornar tão sério. Passados 15 anos, valeu a pena.

Os meus segredos para a concentração quando a música toca? O meu maior segredo é que eu amo o que faço. Quando isso acontece, o nervoso ajuda-nos a agir, é um impulsionador do movimento e não o contrário.

A dança é para toda a gente, todos os géneros, faixas etárias, é para a família... É importante ter uma atividade que nos permita conviver com gente tão diferente. É fantástico ver pessoas que jamais falariam umas com as outras e ver a relação que criam entre elas, e que num contexto que não este, era difícil acontecer. As pessoas acabam por trazer imenso e levar imenso com elas.

A potencialidade de cada um para dançar varia obviamente, mas tudo se aprende. O ouvido é mais difícil de educar, a própria prática ajuda-nos a dominar a matéria. Costuma-se dizer que a dança é 99% transpiração e 1% de inspiração. Por mais  talentosos que possamos ser, se não houver trabalho dificilmente vamos singrar.

A minha dança preferida? Sem dúvida, o passo doble. É a dança mais completa, a que me faz vibrar mais. Tem uma música com uma métrica especifica; depois traz toda aquela tensão e emoção de uma tourada (sem com isto dizer que sou a favor das touradas). É a dança na qual conseguimos ser muito mais intérpretes, em que conseguimos encarnar um personagem ao mais alto nível.

Há uns anos atrás havia um anúncio da Coca Cola em que a lata se mexia sempre que era tocada uma música. O efeito da dança é esse, viramos lata da Coca Cola... Ou pior, às vezes temos a música na nossa mente que parece sempre que estamos a treinar. Todos os momentos servem praticar e aperfeiçoar um gesto específico. As pessoas ganham esse tique, mas em contrapartida tornam-se mais confiantes e com uma maior auto-estima.

A forma como passo a inovação aos meus alunos é muito importante.  Perceber cada aluno e tentar aprender com as dificuldades deles é a melhor metodologia. Quando não consigo passar uma ideia, um passo, a falha é minha que não estou a saber transmitir. É essa procura incessante de encontrar a forma mais eficaz de ensinar um movimento e na desconstrução do mesmo, utilizando exemplos do quotidiano. É nesse encontro que conseguimos inovar e recriar.

Dançar faz-me sentir feminina. No meu caso, quando danço posso ser mulher sem que ninguém me critique por isso. Estou a desenvolver uma arte. Enquanto que no resto, infelizmente as mulheres ainda são muito obrigadas a ser recatadas, na dança podemos abrir os braços, o sorriso, mexer e isso, de facto, é arte.

As mulheres sentem-se atraídas pelas danças de salão por poderem ser elas mesmas sem medos. Com os homens é o efeito contrário, enquanto que a mulher que vem dançar e se exprime é uma artista, um homem que vem dançar “tem ali um problema qualquer”... Quando não é verdade, a dança é uma relação entre os dois, duas pessoas... Não pode haver nada de duvidoso sobre isso.

É engraçado que são as mulheres que arrastam os homens para as danças e depois são eles que até se tornam mais apaixonados e fiéis e, muitas vezes, vêm sozinhos às aulas... mesmo porque a mulher, fruto da vida profissional e doméstica, cede mais facilmente a um dia frio, a um dia de chuva...

Para colmatar a minha paixão de criança, tinha que cantar e representar. Talvez no futuro, vá fazer teatro musical... A paixão para a vida, porque é o meu projecto de vida. Se eu pensar na minha filha, dei aulas grávida até ao ultimo dia... Ela é o prolongamento da minha vida e da minha paixão pela dança. Está sempre a dançar. É mais do que evidente que esse gene passou e está lá.

Fonte

Sem comentários:

Enviar um comentário

Queres publicar as tuas notícias no IDS? Tens alguma sugestão para nós? Envia para indancingshoes@edance.pt

Publicidade

Contribui para o IDS

Andam a dançar por aqui

SEGUE O IDS

PUBLICIDADE