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"Dançar Tardio" com Ana Köhler

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Dançar tardio
Ana Köhler perseguiu o sonho de ser bailarina e agora, em Lisboa, ajuda quem sempre teve esse sonho também e não teve a sua sorte: advogados, gestores, caixas de supermercado voltam a dar uns passinhos de dança na escola que leva o seu nome.

O momento decisivo no sonho de bailarina de Ana Köhler teve por impulso um ultimato dos pais: «Ou tens talento para ser admitida numa escola reconhecida ou voltas à vida normal!» As palavras foram duras e funcionaram como um soco na alma de Ana, então com 20 anos. Na origem da discussão estava a sua insistência em se candidatar à exigente academia de dança clássica Rosella Hightower, em França, em vez de seguir um curso de Gestão em Portugal. Sentiu que esse era o primeiro dia do resto da sua vida e que tinha de transformar o imperativo dos pais numa oportunidade. «Vou partir. É o que quero», disse-lhes. Fez as malas sozinha, no seu quarto, e partiu também sozinha para a capital francesa.

Hoje, com 41 anos, diretora da Escola de Dança com o seu nome, em Lisboa, recorda com emoção esse tempo. «Não foi fácil. Por muito que estivesse certa de que era aquele o meu sonho e de que o queria seguir, custa muito cortar com as nossas raízes. Mas sublimei essa tristeza. A dança sempre esteve acima de tudo.» Durante um mês, Ana frequentou cursos de verão, a preparar-se para a audição com professores da Ópera de Paris, entre os quais uma referência mundial do ensino do ballet clássico, Gilbert Mayer. «Ao fim de 15 dias escreveu-me uma carta de recomendação que dizia: "Identifico nesta jovem artista um potencial artístico (personalidade, presença e sensibilidade) que deve ser encorajado".»

Ana Köhler estava lançada nas estrelas e, naturalmente, foi aceite por Hightower. Foi a primeira etapa rumo a um percurso singular «cheio de experiências», pois nunca gostou de estar muito tempo parada. «Gosto de beber de várias fontes e estou sempre preocupada em desafiar-me», confessa. A Academia Vaganova, de São Petersburgo, Rússia, é uma dessas fontes que alimenta o seu método de ensino. Durante a sua carreira recorreu aos mestres desta academia fundada por Agripina Vaganova, ex-bailarina do Ballet Imperial Russo, cujos princípios revolucionaram o ensino do ballet clássico e produziram talentos como Mikhail Baryshnikov.

Foi no entanto na Holanda que encontrou a sua «casa». Quando começava a instalar-se e a ser conhecida em França nos círculos de bailado - fazia parte, nessa altura, do elenco do bailado A Bela Adormecida , coreografado por Rosella Hightower - um amigo agitou-lhe o espírito aventureiro e convenceu-a a viajar para Roterdão para tentar ali seguir a carreira. Foi aceite na Rotterdamse Dansacademie, uma das mais importantes escolas holandesas, e, mais uma vez, teve de tomar uma decisão determinante na sua vida: seguir como bailarina ou assumir ser professora de ballet. «Queria ficar na dança para o resto dos meus dias, até ao último suspiro. Amo demasiado a dança para ser só uma transição na minha vida e, depois, ter de reconverter para outra via profissional. Vi muitos colegas fazerem a transição da dança para outras carreiras e é muito complicado. Com aquele curso podia ter acesso à carreira de professora de dança e com a vantagem de poder continuar a dançar», conta. Licenciou-se como professora de ballet clássico e contemporâneo e ficou na Holanda a (a dançar e a ensinar) trabalhar durante dez anos. «Ainda penso em holandês, é o meu país de adoção. Não emigrei para a Holanda. Integrei-me totalmente naquela sociedade», sublinha.

A dar aulas em diversas academias e a sentir-se «mais realizada do que nunca», chegou um dia, de Portugal, uma notícia tão triste que teve, de novo, de repensar toda a sua vida. A diferença é que desta vez o que estava em causa era de tal dimensão (Ana pede para não entrar em pormenores, dizendo apenas que teve que ver com a doença de um familiar próximo) que nem precisou de tomar «qualquer decisão difícil» e, possivelmente, foi a única ocasião na sua vida em que «a dança não esteve em primeiro lugar».

Em Portugal, começou do zero. Demorou quase um ano a conseguir umas instalações, alugadas à Câmara de Lisboa, no bairro social da Horta Nova, para lançar a Escola de Dança Ana Köhler (EDAK). «Foi um período fascinante e uma experiência única. Os habitantes do bairro, a maioria de etnia cigana, vinham para a porta da escola jogar às cartas, sentados em caixotes de madeira. Aquele era o ponto mais quente do bairro, havia sol todo o dia», recorda. Lamenta que tivesse havido pais a retirarem os filhos da escola por causa da «vizinhança». «Fiquei um pouco chocada com os preconceitos, estava habituada, na Holanda, a uma enorme diversidade de culturas. Nunca tive nenhum problema naquele bairro, tratavam-me com muito respeito.»

Hoje, a EDAK está junto à Quinta das Conchas. No dia em que a visitámos, Ana recebeu-nos com roupa (sempre) esvoaçante, em tons pérola e bege, que nos seus 50 quilos e 1,60 metros a faz assemelhar-se a um sopro subtil, cuja presença é apenas notada pelas notas musicais que o acompanham. Esta semana houve ensaios intensos para o espetáculo que se realiza hoje no Centro Cultural de Belém, que todos os anos junta as modalidades da escola numa apresentação do trabalho e dedicação de todo o ano. Este ano é A Pequena Sereiae o jovem apaixonado «príncipe» estava a praticar a coreografia. André Amaral tem 23 anos, chegou à escola há dois, nunca tinha feito ballet e vai concorrer este ano à Escola Superior de Dança de Madrid. «O talento do André é enorme, mas é a paixão que tem pela dança que faz a diferença», diz Ana. Pouco depois, André vai para o seu trabalho de repositor de produtos num grande supermercado, entre as vinte e a meia-noite. «Quando o "príncipe" sai, chega a "pequena sereia" para ensaiar. Só nos últimos dias os vamos juntar», diz Ana a rir.

A «sereia» é Tânia, de 25 anos, e está a terminar o estágio de advocacia. Tinha frequentado ballet clássico no Conservatório até aos 16, mas optou pelo Direito. Até encontrar a escola de Ana Köhler. «Este foi o único sítio que encontrei com exigência, conhecimento e cultura», afirma. Não pensa desistir da advocacia. «Ana diz-nos que um artista é sempre um artista, independentemente da profissão. Só justifica estarmos aqui, com a vida atribulada que temos, se for por essa paixão», esclarece.

As aulas de Ballet +18 são as mais concorridas. «Estas pessoas, quando a sua decisão é mais tardia, é já uma opção muito madura. Está dentro delas e vai estar para o resto da vida», diz Ana. Com André e Tânia estão, entre muitos outros, Ana Gonçalves, médica, de 55 anos, que está na EDAK desde a sua fundação; Sidónio, de 35, arquiteto, que garante que a dança «o ajudou a ser mais concentrado e tolerante na vida pessoal, como tem de ser nos espetáculos»; Marina Zambujo, de 29 anos, cantora, que voltou «a encontrar-se» no ballet, de que tinha desistido com 12 anos; e Sónia Cruz, de 39, que começou a frequentar a escola com a filha e ali encontrou o seu «centro de gravidade». Foi grávida para o seu primeiro espetáculo e o filho, com 3 anos, já sobe ao palco.
«Digo sempre aos meus alunos que a dança não é um emprego nem um trabalho, torna-se uma filosofia de vida. Influencia a forma como me visto, como penso, como lido com as pessoas, como educo os meus dois filhos», sublinha Ana Köhler.

A bailarina-professora acredita que está a «formar um público crítico». «Toda a montagem do espetáculo é feita por todos, aprendem a estar profissionalmente no palco. Mais do que os passos são as regras de funcionamento do backstage. Tudo é ensinado aqui, as marcações, os espelhos são tapados um mês antes, os horários têm de ser cumpridos à risca.»

Na aula, a sua aparente fragilidade física desaparece quando se eleva no ar, sorriso aberto, e leva no seu manto invisível de energia todas as aprendizes de bailarina. «Não executem só os passos! Sintam-nos! Não sejam iguais a toda a gente, aqui não!», desafia. Elas sorriem, deixam a música entrar-lhes no corpo e, altivas e imponentes, mostram que compreenderam. «Quando estou no estúdio é como entrar em palco com os meus alunos», assevera Ana, «confronto-os, crianças e adultos, até ao limite. Mas é ao limite de cada um.»

Lá fora, na rua, o entardecer leva as pessoas apressadas do trabalho para casa. Aqui esse mundo fica lá fora e, quando se desce a escada íngreme que conduz aos estúdios, é como atravessar uma fronteira e chegar a um esconderijo onde se consegue estar feliz.

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